V for Verità

Veni, vidi, vici

Março 2, 2009 · 6 Comentários

Vejo V for Verità como um livro.

E isso significa que ele precisa de um fim. Esse post é o último capítulo de um total de 44.

Ao contrário de um livro, no entanto, V for Verità não tem direitos reservados. Todos os seus posts podem ser reproduzidos e transmitidos de qualquer forma por quaisquer meios. Assine seu próprio nome e publique as ideias como se fossem suas, se quiser.

O blog continua de páginas abertas para visitas e comentários.

Adeus

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Videotapes

Fevereiro 20, 2009 · Deixe um comentário

Das páginas de Days of War, Nights of Love:

Qual o sentido de fazer alguma coisa se ninguém está olhando?

Essa não é a pergunta certa.

Todos querem ser famosos. Serem vistos, congelados, preservados pela mídia, porque nós passamos a acreditar no que é visto mais do que no que é vivido. De alguma forma nós entendemos tudo ao contrário e as imagens nos parecem mais reais para nós do que as experiências. Para confirmar que nós realmente existimos, que nós realmente importamos, temos que ver fantasmas de nós mesmos preservados em fotografias, em programas de televisão e videotapes, no olho do público.

E quando você sai de férias, o que você vê? Bandos de turistas com câmeras de vídeos grudadas em suas faces, como se estivessem tentando sugar o mundo real para dentro do mundo bi-dimensional das imagens, gastando seu “tempo livre” vendo o mundo através de uma pequena lente de vidro. Certamente, transformar tudo que você poderia experimentar com os cinco sentidos em informação gravada que você só pode observar à distância, de fora, oferece a ilusão de estar no controle da própria vida: você pode rebobiná-la e reprisá-la, mais de uma vez, até que tudo pareça ridículo. Mas que tipo de vida é essa?

O que nos leva à pergunta certa:

Qual o sentido de olhar se ninguém está fazendo coisa alguma?

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Virada

Fevereiro 18, 2009 · Deixe um comentário

Cansei de rejeitar a hipocrisia. A partir de agora, vou aceitá-la inteiramente.

É impossível evitar a hipocrisia em qualquer combate contra o status quo. As estruturas políticas e econômicas são construídas de tal forma que é praticamente impossível não fazer parte de seu funcionamento. O que quer que um homem pense sobre as oportunidades de emprego disponíveis a ele ou sobre o sistem econômico como um todo, ele quase não tem escolha exceto trabalhar se não quiser morrer de fome ou de uma doença para a qual não pode pagar um tratamento. Se ele não acredita no valor da propriedade material, ele não tem escolha a não ser comprar toda a comida e roupa de que precisa, e comprar ou alugar um lugar para se morar (se não está pronto para bater de frente com o sistema legal). Isso porque não há terras livres disponíveis que ainda não tenham sido exigidas por alguém e quase nenhuma comida ou recursos por aí que não sejam a “propriedade” de alguém.

Se ele quer distribuir um material criticando o sistema capitalista de produção e consumo, não tem como produzir e distribuir esse material sem pagar para produzi-lo, ou vendê-lo a consumidores para financiar a produção.

Se ele não quer financiar a brutal tortura e matança de animais em nome do capitalismo, pode parar de comer carne e derivados do leite, parar de comprar produtos de saúde que são testados em animais, e parar de usar couro e peles. Mas ainda há abuso de animais nos filmes que ele assiste, nas ruas da cidade que ele mora, e em incontáveis produtos e serviços com os quais seria muito difícil passar sem em uma sociedade moderna. Além do mais, as companhias das quais ele compra vegetais estão ligadas às companhias que vendem carne e derivados do leite, e seu dinheiro acaba tendo o mesmo fim. E esses vegetais foram provavelmente colhidos por mão-de-obra imigrante ou por outros trabalhadores oprimidos.

Para o homem comum, que não está pronto para desenraizar sua vida completamente e arriscar a morte e o completo ostracismo, manter as mãos limpas do pesadelo à sua volta é um sonho praticamente impossível.

Mesmo se você rejeitar radicalmente e se desconectar de cada uma dessas instituições, e sobreviver somente do roubo e de transgressões, você ainda estará representando um papel no status quo (nem melhor, nem pior do que qualquer outro). “O Sistema” é uma entidade orgânica vasta que inclui tudo dentro de suas fronteiras, até mesmo os reclusos que dele fogem e os revolucionários que morrem enfrentando-o. Lutar contra ele é sempre lutar a partir de dentro, porque ele nos cria e nos molda, até mesmo quando nos direciona contra si. Declarar estar fora dele, mesmo que por um instante, vivendo da forma como vivemos em um mundo que é feito quase totalmente por construções humanas (sejam físicas, sociais ou filosóficas) é pior que a insanidade: é um fanatismo com inclinações cristãs.

Os valores ocidentais modernos são tão integrados em nossas mentes que é praticamente impossível evitar ser influenciado em nossas ações pelas próprias suposições e atitudes contra as quais lutamos. Depois de uma vida inteira sendo ensinados a pôr um valor financeiro nas horas disponíveis de nossas vidas, é difícil parar de pensar que devemos ser materialmente recompensados para que uma atividade seja legítima.

Depois de uma vida inteira sendo ensinados a respeitar hierarquias de autoridade, é muito difícil começar a interagir com todos os seres humanos como sendo nossos iguais. Sem contar fazer sexo com eles sem erotizar a dominação e a submissão.

Depois de uma vida inteira sendo ensinados a associar a felicidade a uma atitude de espectador passivo (e com a “estabilidade”), é difícil gostar mais de construir os próprios móveis do que sair para comprá-los, ou vivenciar emoções fora da televisão e do cinema. E é claro que há mais milhares de meios pelos quais esses valores e suposições se manifestam em nossos pensamentos e em nossas ações.

No entanto, isso não significa que qualquer resistência seja fútil. Se nossas escolhas são tão limitadas que não podemos agir sem replicar as condições das quais estamos tentando escapar, a resistência é ainda mais importante. Sim, isso significa que a “inocência” é um mito, um conceito contra-revolucionário que devemos deixar de lado junto com o resto do pensamento pós-cristão e a ética protestante do trabalho.

O cristão (ou qualquer outro religioso tradicional de doutrina similar) ordena aos seres humanos que eles sejam inocentes, que eles mantenham suas mãos limpas de qualquer “pecado”. Ao mesmo tempo, o “pecado” é tão difícil de se evitar para o cristão (assim como a atividade contra-revolucionária para os revolucionários) que essa imposição leva a sentimentos de culpa, de fracasso e de desespero, quando ele percebe que é impossível ser “inocente” e “puro”. Na verdade, ao proibir o “pecado”, a doutrina cristã o torna ainda mais tentador e intrigante para aqueles que acreditam nele. Porque não importa se a mente reconhece ou não, o coração humano não reconhece autoridade alguma e sempre irá procurar aquilo que é proibido.

Nós não devemos cometer os mesmos erros dos cristãos. Ordenar que o radicalismo e a rebeldia sejam livres da hipocrisia, livre de qualquer implicação no sistema, tem os mesmo efeitos que a ordem cristã de que as pessoas sejam livres do pecado: isso cria frustração e desespero naqueles que procurariam uma mudança, e ao mesmo tempo torna a hipocrisia muito mais tentadora.

Ao invés de procurar manter as mãos limpas, devemos procurar fazer valer a pena os inevitáveis efeitos negativos de nossas vidas oferecendo atividades positivas o suficiente para mais do que equilibrar a balança. Essa aproximação ao problema pode nos salvar de ficarmos imobilizados pelo medo da hipocrisia ou pela vergonha de nossa “culpa”.

Além do mais, ordenar que evitemos a hipocrisia é negar a complexidade da alma humana. O coração humano não é simples. Todo ser humano tem uma variedade de desejos que apontam em direções diferentes. Pedir que alguém persiga somente um desses desejos e ignore os outros é pedir que esse alguém permaneça eternamente incompleto… e deixe de ser curioso. Isso é típico do pensamento dogmático e ideológico que tem nos afligido por séculos: ele insiste que o indivíduo precisa ser leal a um conjunto de regras, e apenas um, ao invés de fazer o que é apropriado a suas necessidades para cada situação em particular.

Um ser só pode se expressar completamente através da hipocrisia. Não há problema em formular um conjunto geral de conduta, mas é essencial quebrá-lo de tempos em tempos para prevenir a estagnação e permitir-se a oportunidade de considerar se essa conduta precisa de uma reavaliação. Uma pessoa que não tem medo de ser hipócrita corre menos riscos de se vender completamente um dia, porque está disposta a provar do “fruto proibido” sem se sentir forçada a fazer uma escolha permanente. Ela é imune à vergonha e ao desespero eventuais que afligem aqueles que procuram pela “inocência” perfeita.

Seja orgulhoso de você como é: não tente fazer as inconsistências de sua alma se encaixarem de uma maneira falsa e forçada. Ao invés de se prender inflexivelmente a um sistema, vamos ousar rejeitar a ideia de que devemos ser fiéis a uma doutrina em particular em nossos esforços para criar uma vida melhor para nós mesmos. Vamos não declarar inocência, não declarar pureza e certeza. Vamos proclamar orgulhosamente que nós somos hipócritas, que nada irá nos impedir, nem mesmo a hipocrisia, de lutar para ter o controle de nossas próprias vidas.

Numa era em que é impossível evitar ser uma parte do sistema contra o qual lutamos, somente a hipocrisia descarada é verdadeiramente subversiva. Só ela fala a verdade de nossos corações, e só ela pode mostrar o quão difícil é evitar viver a vida que foi preparada para nós. E isso já é uma boa razão para se lutar.

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Vilã

Fevereiro 16, 2009 · Deixe um comentário

Ouvi no rádio uma metáfora muito interessante.

Alguém disse mais ou menos o seguinte: “O Déficit Zero da governadora Yeda é uma fraude. É como receber R$ 1.000,00 em um mês e gastar exatamente R$ 1.000,00 em consumo, mas deixar de pagar as contas de água e de luz. O déficit será zero, mas as consequências serão sentidas de outras formas”.

Em áreas como a saúde pública, por exemplo. Há um desinteresse das “autoridades” nas políticas de prevenção e erradicação de endemias e nas áreas de saneamento, habitação e educação ambiental. O resultado aparece na forma de doenças até então desconhecidas no estado.

Se a Yeda não fosse mentirosa, os outdoors do Déficit Zero seriam assim:

Déficit Zero = Dengue.

Déficit Zero = Febre Amarela.

Déficit Zero = Leishmaniose.

Falando em outdoor, ela proibiu os que mostravam a sua verdadeira face. Como ela não pode me proibir, fica aqui um pequeno registro deles.

Yeda

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Verossímil?

Fevereiro 6, 2009 · 1 Comentário

Todos concordam que estamos em meio a uma crise capitalista.

Mas peraí. Estamos? Quer dizer que, até agora, não estávamos?

Quer dizer que 950 milhões de famintos no mundo não é uma crise capitalista?

4 bilhões e 750 milhões de pobres no mundo não é uma crise capitalista?

Metade da população mundial trabalhar em condições precárias não é uma crise capitalista?

45% da população não ter acesso a água potável não é uma crise capitalista?

3 bilhões de pessoas sem saneamento básico não é uma crise capitalista?

13 milhões de pessoas (e bilhões de animais) mortos todo ano por causa da deterioração dos ambientes naturais e por mudanças climáticas não é uma crise capitalista?

Mais de 16.000 espécies (25% mamíferos) em risco de extinção não é uma crise capitalista?

E o fato de algumas empresas capitalistas não alcançarem os lucros esperados é? Pelo jeito, em algum momento no meio do caminho, nossas prioridades foram seriamente afetadas.

Até onde eu sei, o capitalismo não está em crise. Ele é uma crise. Assim como sempre esteve em uma, sempre estará.

Livremente adaptado do ótimo blog Diário Gauche.

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Vidros

Fevereiro 4, 2009 · 2 Comentários

Você já parou pra pensar no que tem dentro do seu vidro de shampoo?

Ou no vidro do seu perfume, desodorante, cremes em geral e demais cosméticos, como sabonetes e pastas de dente? Bom, eu já. E quando fui pesquisar, o que descobri não foi particularmente agradável.

Todas as informações abaixo foram retiradas do site Skin Deep. É só ir lá e digitar o nome de qualquer marca, produto ou ingrediente pra revelar a podridão que há por trás de algo cheiroso.

Isso foi o que descobri sobre o meu shampoo:

Marca: Johnson & Johnson
Nível de Perigo: 4 – nível moderado

Os ingredientes deste produto estão ligados a(o):

Câncer;
Intoxicação reprodutiva (infertilidade);
Atrasos no desenvolvimento;
Violações à lei dos cosméticos;
Danos à imunidade;
Reações alérgicas;
Danos ao sistema regenerativo;
Danos ao cérebro e ao sistema nervoso;
Degeneração nervosa crônica;
Intoxicação cardiovascular, estomacal ou dos aparelhos digestivo e respiratório;
Irritação da pele, dos olhos ou dos pulmões;
Impurezas tóxicas;

E o pior de tudo:

Esta empresa conduz testes em animais (veja vídeos no YouTube para ter uma noção do que isso significa).

Minhas conclusões: sabe aquelas imagens das caixinhas de cigarro? Não há nenhum motivo para que não devam aparecer nos rótulos dos cosméticos também. E o aviso “Mantenha longe do alcance de crianças” pode se estender para “e de todos os outros seres vivos”.

E isso não significa que não devemos mais usar nenhum produto de limpeza e de higiene. Significa apenas que devemos saber escolher as marcas certas. Como a Natura, por exemplo. Quando procuro pela empresa no site, tudo que encontro é “nível de perigo – zero” e “não conduz testes em animais”.

Melhor ainda: fabrique seus próprios cosméticos. Sites como o WikiHow ensinam como fazer desde desodorantes até sabonetes, com ingredientes caseiros e, consequentemente, bem mais baratos.

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Voltas

Janeiro 28, 2009 · 1 Comentário

Resolvi entrar de vez no movimento bookcrossing.

Para quem não conhece, é o seguinte: uma pessoa escolhe um de seus livros e o abandona propositalmente pelas ruas da cidade. A intenção é fazer com que os livros circulem, e não fiquem envelhecendo, inúteis, dentro de um armário empoeirado. Dentro do livro, uma mensagem colada no verso da capa explica o processo:

book crossing

É ou não é uma grande idéia? E o que é melhor: é fruto da cooperação, sem a necessidade de qualquer participação de grandes empresas ou corporações. A não ser, é claro, na fabricação do livro em si. Mas mesmo a isso há alternativas, como os fanzines, por exemplo.

Até agora, já libertei três livros: A Volta do Parafuso, de Henry James; Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne; e Tartufo ou O Impostor, de Molière. São três ótimos livros. A quem os encontrar, uma boa leitura.

Atualizações:
Apologia de Sócrates, de Platão (5 de fevereiro).

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Vara-de-marmelo

Janeiro 28, 2009 · Deixe um comentário

No começo da semana, Obama assinou uma lei “proibindo” a tortura norte-americana.

Se as aspas na palavra fazem sentido ou não, deixo a seu critério. Mas veja primeiro o que um artigo no The Comment Factory tem a dizer (a tradução é livre e descompromissada):

A proibição de tortura que não proíbe a tortura

Se você está deitado no chão com seu torturador o encarando de cima, não importa muito se ele é americano ou se foi treinado e equipado por americanos.

Quando Obama declarou essa semana que “Os EUA não irão torturar”, muitas pessoas pensaram que ele acabaria com essa prática. Na verdade, ele apenas a reposicionou. Sua ordem proíbe alguns – não todos – oficiais americanos de torturar, mas não proíbe a nenhum deles de patrocinar torturas além de suas fronteiras.

Sua mudança política afeta apenas uma pequena porcentagem das torturas pelas quais os EUA são culpados, e pode ser “compensada” por um aumento ao apoio à tortura em outros lugares. A pegadinha está no fato de que desde o Vietnã, quando as forças americanas torturavam mais diretamente, os EUA assumiram um papel de espectadores – pagando, armando e treinando estrangeiros para fazer o serviço por eles, mantendo o cuidado de permanecer discretamente de lado.

Os EUA mantiveram as coisas dessa forma até que Bush Jr. mudasse o protocolo e fizesse muitos americanos sujarem as mãos, às vezes até tirando fotos (veja o livro Procedimento Operacional Padrão). O resultado foi um fiasco em termos de relações públicas, já que expor tais práticas diminuiu o seu poder. Apesar da revolta, a tortura de Bush Jr. não era nada se comparada às torturas dos clientes dos EUA.

Essas forças estavam e ainda estão operando com os militares ou outro tipo de incentivo americano em lugares como Egito, Israel, Arábia Saudita, Etiópia, Paquistão, Jordânia, Indonésia, Tailândia, Uzbequistão, Colômbia, Nigéria e Filipinas, para citar alguns. Obama poderia ter impedido o apoio às forças estrangeiras que torturam, mas escolheu não o fazer.

Suas ordens levam em conta as seguintes condições: “… um indivíduo sob custódia ou controle efetivo de um oficial, empregado ou outro agente do governo dos EUA, ou detido em uma instalação pertencente, operada ou controlada por uma agência ou departamento dos EUA, em qualquer conflito armado…”. Ou seja, não proíbe nem mesmo a tortura por agentes americanos fora dos ambientes de “conflito armado”, nos quais a maior parte das torturas acontece de fato, já que muitos regimes opressivos não estão em conflito armado.

E mesmo se, como diz Obama, “Os EUA não irão torturar”, ele ainda pode pagar, treinar e equipar torturadores estrangeiros, e garantir que eles não enfrentem a justiça local ou internacional. Isso é um retorno ao antigo status quo, que foi de Ford a Clinton, em que os americanos ensinam interrogatório e tortura e esperam na sala ao lado enquanto as vítimas gritam.

Muitos americanos, para seu crédito, odeiam a tortura. Bush Jr. expôs esse sentimento. Mas para acabar com ela, precisam entender os fatos e perceber que a proibição de Obama não a proíbe. Ela pode até mesmo aumentar o patrocínio que os EUA dedicam à tortura.

Haverá mais choques, sufocamentos e queimaduras. E a convergência de milhares de mentes com um simples pensamento: “Por favor, deixe-me morrer”.

http://www.thecommentfactory.com/

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Vale-tudo

Janeiro 22, 2009 · Deixe um comentário

Eu tenho uma ótima dica para quem participa de dinâmicas de grupo, reuniões empresariais e jantares de negócios:

Act Like

Na verdade, a dica também serve para muitas outras coisas. Experimente em ocasiões diversas.

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Vagamundo

Janeiro 20, 2009 · 4 Comentários

Uma homenagem a todos que pretendem, um dia, fazer uma viagem de verdade:

It’s a mistery to me
We have a greed
Upon which we have agreed

And you think you have to
Want more than you need
Until you have it all
You won’t be free

Society
You’re a crazy breed
I hope you’re not lonely
Without me

When you want more than tou have
You think you need
And when you think more than you want
You thoughts begin to bleed

I think I need to find a bigger place
Cause when you have
More than you think
You need more space

Society
Crazy indeed
Hope you’re not lonely
Without me

There’s those thinking more less
Less is more
But if less is more,
How you keepin score?

Means for every point you make
Your level drops
Kinda like you’re startin from the top
And you can’t do that

Society
You’re a crazy breed
Hope you’re not lonely
Without me

Society
Crazy indeed
Hope you’re not lonely
Without me

Society
Have mercy on me
Hope you’re not angry
If I disagree

Society
You’re a crazy breed
Hope you’re not lonely
Without me

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Vélos e Vira-latas

Janeiro 20, 2009 · Deixe um comentário

Quarta-feira da semana passada, uma ciclista morreu atropelada na Avenida Paulista.

O fato é comum. De acordo com a revista CartaCapital, “todos os dias morrem, em média, 4,3 pessoas nas ruas de São Paulo. Motociclistas e ciclistas são as maiores vítimas. Os primeiros, porque trabalham basicamente correndo contra o tempo. Os últimos, porque o traçado urbano não leva em conta a bicicleta. E, também, porque os motoristas não costumam considerá-la um veículo de legítimo uso, embora o Código de Trânsito Brasileiro determina que tenha preferência sobre os automóveis, e considere infração deixar de guardar a distância lateral de 1,5 metro ao passar ou ultrapassar bicicleta”.

O caso dessa ciclista em particular, Márcia Regina de Andrade Prado, chegou até mim através da lista de discussão do CMI (Centro de Mídia Independente), uma organização de jornalistas voluntários e, como o nome diz, independentes. Ou seja, sem compromisso com qualquer tipo de autoridade. Para quem não sabe, é uma organização mundial, mais conhecida internacionalmente como Indymedia. É interessante, por exemplo, buscar notícias sobre o conflito em Gaza através da mídia independente israelense e palestina, e perceber que nem todos os cidadãos de Israel apoiam as atitudes de seu exército.

Mas voltemos aos carros. É hora de explicar a segunda parte do título, “vira-latas”.

Mês passado, um cachorro de rua foi atropelado aqui perto de casa. Animais são ainda mais invisíveis aos motoristas do que os ciclistas. Nesse caso, como na maioria, o motorista nem sequer parou o veículo. Abandonou o animal a seu próprio azar, em frente a uma veterinária. A veterinária, por sua vez, recusou-se a cuidar do cachorro. A menos, é claro, que alguém pagasse por ele.

Pagamos por ele e o deixamos internado. Só que, no fim, o destino dele foi igual ao da Márcia. A única diferença é que não houve uma passeata em seu nome.

Vélo: bicicleta em francês.

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Visto

Janeiro 8, 2009 · 5 Comentários

Eu gosto de idéias heréticas. Especialmente as que fazem mais sentido quanto mais se pensa sobre elas. Aqui vai uma: vamos abrir as fronteiras mundiais aos imigrantes.

É curioso o fato de que os países são tão abertos para permitir a entrada de bens e dinheiro através de suas fronteiras, mas tentam com todas as forças negar esse mesmo direito às pessoas. Isso não é apenas injusto. É também uma negação dos princípios do “livre-mercado”* sobre os quais muitas das economias mundiais são construídas. Se o livre movimento de capital é tão importante para uma economia global eficiente, então o mesmo deveria se aplicar à livre movimentação de trabalho, certo? Apóstolos do livre-mercado soam racistas e xenófobos ao negar essa lógica.

E há economistas famosos por aí que concordam comigo. Lant Pritchett, por exemplo.

Ele afirma que o crescente endurecimento dos controles de imigração nos países ricos é o novo Apartheid de uma economia mundial globalizada, trancafiando pessoas em países que oferecem condições de campos de concentração. Um trabalhador vietnamita, por exemplo, teria nove vezes o poder de compra se fizesse exatamente o mesmo trabalho no Japão. O trabalho de um queniano valeria sete vezes mais no Reino-Unido, assim como o de um mexicano nos Estados Unidos. Por que não deixá-los entrar?

Alguns poucos, é claro, podem. Porque os países ricos precisam de imigrantes para fazer as coisas que nem os mais pobres de seus próprios países fariam. Como colher uvas na Califórnia e laranjas na Espanha, limpar banheiros na Inglaterra e quartos de hotel na Itália, cuidar de bebês em Washington e satisfazer a libido dos homens de Tel-Aviv a Toronto. Criminalizar milhões de imigrantes fornece os bens necessários enquanto mantém essa classe destituída de quaisquer direitos. Porque se reclamarem podem ser mandados de volta para casa.

O Apartheid na África do Sul era, ao menos, mais honesto.

Economias são feitas de pessoas. A ideia original era as primeiras ajudarem as segundas, não? Centenas de milhões de pessoas em países pobres já dependem do dinheiro enviado por familiares que moram em países ricos. Economias inteiras entrariam em colapso sem essa movimentação, cujo capital entra direto no bolso dos cidadãos, e não em contas de bancos suiços ou em salários de consultores ocidentais. Estender esse tipo de economia ao se abrir as fronteiras é um caminho certo para distribuir a riqueza ao redor do mundo.

O fato de os governos mundiais não o fazerem só demonstra o que realmente pensam sobre a desigualdade social. É uma ótima desculpa para justifica a febre do “crescimentismo”, mas aqueles que já tem mais do que precisam não têm interesse em dividir a sua parte.

*Para um livre-mercado de verdade, veja The Really Really Free Market.

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Vice-versa

Janeiro 8, 2009 · 1 Comentário

Um cartaz cortesia Crimethinc:

Boys and Girls

Para cada mulher forte que está cansada de agir como se fosse frágil, há um homem cansado de ter que parecer forte quando se sente vulnerável. Para cada homem que carrega o fardo de uma expectativa constante de ter que saber tudo, há uma mulher cansada de pessoas que não acreditam em sua inteligência. Para cada mulher que está cansada de ser considerada sensível demais, há um homem que teme ser gentil e chorar. Para cada homem para quem a competição é a única maneira de provar a masculinidade, há uma mulher chamada de não-feminina quando compete. Para cada mulher que joga fora seu forno E-Z-Bake, há um homem querendo encontrar um. Para cada homem que luta para não deixar a publicidade ditar seus desejos, há uma mulher aguentando os ataques da indústria da propaganda à sua auto-estima. Para cada mulher que dá um passo em direção à sua liberação, há um homem que vê seu caminho para a liberdade ficar mais fácil.

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Violência

Janeiro 5, 2009 · Deixe um comentário

Palestina

“Infelizmente, a situação é muito ruim na cidade de Gaza – A ocupação israelense está atacando mais e mais organizações, mais casas e mesquitas, e minha universidade foi atingida na noite passada.

Eles se concentram nos civis. É mais fácil para eles.

Nada está funcionando em Gaza e nós não podemos fazer nada. Nós permanecemos dentro de casa, minha família e eu. Toda família em Gaza está fazendo o mesmo.

Nós estamos acostumados a ouvir esses ataques aéreos, todo mundo aqui está acostumado com isso e nós não temos nenhuma maneira de nos protegermos. Nós apenas ficamos dentro de casa, ouvindo as notícias, ouvindo onde o exército israelense ataca, escutando os F16s e os Apaches e esperando para ver o que vai acontecer.

Nós não estávamos preparados para a guerra. Eles atacam civis e crianças e não se importam se estamos armados ou não.

O mundo olha para o desarmado povo palestino como se eles fossem uma nação armada, como se fôssemos iguais a Israel. Eles acham que temos foguetes que causam grandes danos e efeitos, mas isso não é verdade.

A verdade é que nós não temos nada e eles estão destruindo tudo em Gaza.

Porque o exército israelense ataca minha universidade, e as mesquitas, e as casas? Eu não sei a resposta. Você deve perguntar a eles.

Os próximos dias serão muito ruins. Haverá mais e mais mortes”.

Majed Badra, 23 anos, estudante da Universidade Islâmica.

E o pior de tudo é ouvir o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, e os líderes das nações européias dizerem que “Israel tem o direito de se defender”.

Se defender é matar mais de 500 palestinos por supostos ataques terroristas que tiraram a vida de 4 israelenses? Sendo que o ataque original, se não for fictício, veio de um povo que sofre com bloqueios políticos e econômicos há 2 anos?

É compreensível que os líderes ocidentais defendam Israel. Afinal, esse mesmo tipo de opressão é o que sempre fizeram com a parcela mais pobre da população de seus próprios países. Se fossem a favor do povo palestino agora, teriam que negar a própria “democracia” e o sistema que os levou ao poder em primeiro lugar.

Quanto aos motivos do ataque: Bom, é época de eleição em Israel. E antigos candidatos que provaram ser “duros” para com os árabes sempre conquistaram muitos votos. Algo me diz que isso não é uma coincidência.

Para mais informações sobre o ataque à Faixa de Gaza, em tempo real, de moradores afetados pessoalmente e não comprometidos com nenhum tipo de organização, acesse http://twitter.com/AJGaza.

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Veículos

Janeiro 4, 2009 · Deixe um comentário

Trechos de entrevista com Guilherme Leal:

Crescimento sustentável significa necessariamente crescimento menor, não?
Há uma diferença entre crescimento e desenvolvimento sustentável. Padecemos globalmente do vício do “crescimentismo”. Sei que crescer é um vetor importante para reduzir as desigualdades, mas defendo a necessidade de se aprofundar uma discussão sobre formas de melhorar o nível de vida das pessoas sem que isso dependa exclusivamente de uma exploração insana dos recursos naturais. Encontrar formas de conciliar objetivos de bem-estar com os de preservação da vida para as próximas gerações. Nos últimos 150 anos tiramos bem mais do planeta do que ele tem capacidade de regenerar. Por isso, a celebração do crescimento dos últimos dez, quinze anos, o espanto em relação aos resultados da China, por exemplo, é alienante. Não é sustentável, como se vê agora [...] O gado é um dos grandes problemas. Na Amazônia, a pecuária extensiva é uma fonte de desmatamento seriíssima. Não há sentido permitir mais desmatamento. E o que já foi aberto deve ser usado, preferencialmente, para o plantio [...] O tema da sustentabilidade está claramente ligado ao destino das grandes metrópoles. No Brasil, não há uma coordenação dessas áreas urbanas profundamente interligadas. Elas ficam meio ao sabor dos ventos. Veja a questão do transporte. Toda a lógica está voltada para o estímulo do transporte individual. Aliás, fico arrepiado ao ver todo esse dinheiro despejado para auxiliar a indústria automobilística. Por mais que se precise de empregos, por mais que se celebre o crescimento fantástico do setor, não consigo ficar satisfeito. Dá pra ficar contente com o fato de que 100 mil novos carros são incorporados por mês à frota de São Paulo? Não é possível imaginar algo mais inteligente do que umas latinhas fumegantes que poluem e te deixam aprisionados em engarrafamentos cada vez maiores?

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Véspera

Dezembro 24, 2008 · Deixe um comentário

natal

Presente

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Versus – versão 3

Dezembro 23, 2008 · Deixe um comentário

Diversão
Mire horizontes…

versus

Trabalho
… não destinações.

A diversão é o que resta quando todos os problemas de sobrevivência foram resolvidos e o tempo e a energia permanecem. A diversão não é confinada por exigências externas. O indivíduo estabelece seus próprios objetivos e motivações durante o curso da ação. A diversão surge em uma condição de liberdade – ela é a condição da liberdade. Na diversão, o indivíduo interage com as forças ao seu redor ao invés de reagir a elas. Ele cria o contexto de suas ações, ao invés de deixar-se moldar passivamente pela situação: e é assim que a auto-determinação é possível. É possível ver diversão nos grafites e nas colagens das paredes urbanas, no acampamento rústico de fazendas ocupadas, nas barreiras quebradas por insurgentes, no movimento dos corpos dos amantes.

Os recursos para a diversão estão disponíveis em abundância. Quanto mais alguém se diverte, mais os outros são encorajados e possibilitados de fazer o mesmo. A verdadeira diversão é contagiosa. Ninguém pode ser divertir muito tempo às custas dos outros – porque ser “livre” de tal forma acaba exigindo muito trabalho.

E será que a maioria das coisas consideradas como “diversão” realmente merecem tal título? É divertido quando um funcionário joga golfe com seu patrão? E quando um bando de homens pratica um esporte com a dominação e a subjugação em mente? E quando um jovem chega do trabalho tão exausto que não possui energia para mais nada além de jogar videogames?

As crianças vêm a esse mundo sabendo tudo sobre diversão. Ao menos até que tenham passado alguns anos trancadas em uma sala com a televisão ligada. Nós podemos conquistar de volta essa inocência perdida, para eles e para nós mesmos, encarando tudo que fazemos como um jogo ao invés de um conflito ou uma responsabilidade.

O segredo mais escondido pelo capitalismo é o de que as atividades divertidas também podem prover nossas necessidades básicas. Pense em todos os aposentados que cuidam de jardins e constroem prateleiras. Exceto em extremidades, o trabalho é desnecessário.

O trabalho serve apenas para sobreviver, nada mais. Aparece sempre como uma resposta à necessidade, seja ela comida, abrigo, seguros de vida ou estabelecimento do status social. O trabalho obedece a imperativos. A diversão cria suas próprias regras.

Prazer x Trabalho

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Versus – versão 2

Dezembro 23, 2008 · Deixe um comentário

Vida
Liberdade, e a busca pela felicidade

versus

Sobrevivência
Segurança, e a busca pela propriedade

A vida é a existência que sente vontade de acordar pela manhã. Fala-se sobre a vida em poemas épicos, canções de amor, em peças e sonetos de Shakespeare. A sobrevivência é o terreno das receitas médicas, dos planejamentos urbanos, das tabelas econômicas. A vida é gloriosa, estupefante, extravagante. A sobrevivência, sem a vida, é ridícula, pesarosa e absurda.

A sobrevivência é a vida reduzida a imperativos, sejam eles biológicos (respire! coma! faça sexo!) ou culturais (ligue o ar-condicionado para resfriar! veja TV para se manter atualizado! compre um carro para atrair uma parceira!). Ordens específicas às vezes se misturam, como no caso do programador de computadores que não consegue se alimentar sem um abridor de latas. Mas a principal característica dessas necessidades é a de que elas parecem ser não-negociáveis.

Recursos de sobrevivência tendem a ser vistos como escassos. Há uma limitação de comida, água, abrigo e remédios no mundo. Mas como disse o famoso andarilho ao burguês que o perguntou “você precisa comer, não precisa?”: “Sim, mas não tanto quanto você”.

Nossa era caracteriza-se por patamares cada vez mais altos de sobrevivência. O padrão mínimo de vida para se participar da sociedade está sempre aumentando, e manter-se atualizado é um emprego de tempo integral: conseguir o novo formato de leitor digital, aprender a utilizar o novo programa de computador, tratar-se com o novo medicamento… Essa aceleração tecnológica e cultural constante é a conseqüência de um sistema econômico baseado na competição, no qual a inovação contínua é necessária tanto para se vender novos produtos quanto para acompanhar todos aqueles que os usam.

Muitos antropologistas acreditam que as pessoas passam mais tempo trabalhando para cumprir suas “necessidades” básicas do que em qualquer outra época. Seres humanos pré-históricos passavam a maior parte de seus dias em ócio criativo, enquanto nós, com todos os nossos facilitadores de trabalho, gastamos a maior parte de nossas vidas arrecadando dinheiro para pagar por eles, usando-os para cortar a grama, esperando no trânsito para comprar mais baterias… E, claro, quanto mais tempo gastamos suprindo a própria sobrevivência, menos tempo temos para viver.

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Versus – versão 1

Dezembro 20, 2008 · Deixe um comentário

Abundância
Todos nós podemos ser ricos…

versus

Escassez
… nem todos nós podemos ter muito dinheiro.

Abundância e escassez não são apenas medidas dos recursos que existem para resolver necessidades. São maneiras diferentes de encarar tanto recursos quanto necessidades.

Recursos abundantes excedem as necessidades. Podem até mesmo multiplicar-se com o uso. A maior parte das coisas que distingue a vida da sobrevivência – amor, amizade, confiança, imaginação, criatividade, coragem, aventura, experiência – está disponível em abundância. Quanto mais se participa delas, mais se tornam disponíveis.

Abundância e escassez são manifestações de aproximações opostas à vida. Dependem apenas de nossos valores e suposições.

Recursos escassos existem em quantidade limitada, e é provável que não exista o suficiente para ser distribuído. Uma economia escassa é movida pelas considerações de tais condições. As “leis” da oferta e da demanda, que são impostas por uma insuficiência, real ou percebida, de bens necessários.

Pode até parecer que a escassez é um fato inescapável da vida, mas não é tão simples. Nem toda escassez é imposta pelas circunstâncias: podemos impô-la por conta própria. Em nossa civilização tecnológica e pós-industrial, ferramentas e amenidades que há poucos meses nem se conheciam estão disponíveis aos montes. E ainda assim sentimos que há uma insuficiência de coisas das quais precisamos. Isso não deveria ser uma surpresa, já que nosso sistema econômico e social depende do fato de não haver o suficiente para todos. Qualquer um pode ter uma vida plena, mas nem todos podem ter uma carteira cheia. Nossa sociedade institui a escassez e a privação, ao transformar a vida em uma busca desesperada por status e materiais de riqueza limitados.

É possível possuir o mundo inteiro ao deixá-lo livre. Ao tentar conquistá-lo, perdemos tudo que não está ao nosso alcance. Aqui vai um exemplo: frutas crescem livremente à nossa volta, naturalmente envoltas em uma casca biodegradável e contendo sementes nas quais mais árvores frutíferas crescerão após a fruta ser comida. E há candy bars, pelas quais devemos trocar o nosso esforço, cujas “cascas”, produzidas de plásticos e químicos alheios à natureza, contribuem para a lenta acumulação de lixo que torna as árvores frutíferas cada vez mais raras.

Os exemplos existem em abundância. Pessoas em greve ou envolvidas em protestos por uma causa maior do que si mesmas encaram a revolta e a insubmissão como formas de aventura e oportunidade, enquanto os mantenedores do status quo, da “lei e da ordem”, enxergam apenas capricho e destituição. O apaixonado vê o amor como algo que só aumenta em riqueza e profundidade ao ser dividido livremente, enquanto o esposo possessivo e ciumento vê um prêmio precário obtido pelo sacrifício e pelo trabalho duro, que deve ser colecionado e enjaulado. O pretendente a rock star ou estrela de cinema precisa de milhões de fãs anônimos observando suas ações para validá-las – a própria individualidade é sujeita à escassez em uma sociedade de espectadores – enquanto membros de comunidades sociais e de apoio adquirem auto-confiança e felicidade no limite em que ajudam os outros ao seu redor a fazer o mesmo.

No fim das contas, há o suficiente, de tudo, para todos. Mas também há os que preferem jogar tudo fora a dividir o resto com você.

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Vocação

Dezembro 20, 2008 · Deixe um comentário

Adriano (Imperador de Roma de 117 a 138 d.C.), em Mémorias de Adriano:

“Duvido que toda a filosofia do mundo seja capaz de suprimir a escravidão: no máximo mudar-lhe-ão o nome. Sou capaz de imaginar formas de servidão piores que as nossas porque mais insidiosas: seja transformando os homens em máquinas estúpidas e satisfeitas que se julgam livres quando são subjugadas, seja desenvolvendo neles, mediante a exclusão do repouso e dos prazeres humanos, um gosto tão absorvente pelo trabalho como a paixão da guerra entre as raças bárbaras. A essa servidão do espírito ou da imaginação, prefiro ainda nossa escravidão de fato”.

Não importa se é Marguerite falando pela boca de Adriano ou o contrário: o conceito de Wage Slavery sempre teve raízes profundas. Grilhões, ainda que de ouro, sempre serão grilhões.

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Valores

Dezembro 16, 2008 · 1 Comentário

Da reportagem O Brasil Progressista, da CartaCapital dessa semana:

“A idéia conservadora de que os direitos humanos protegem apenas bandidos e não servem lá para muita coisa entrou em descrédito no Brasil. Aos poucos, a população mostra-se mais aberta às políticas públicas de promoção da igualdade, de redução das disparidades de gênero e raça e das estratégias de combate à violência não voltadas exclusivamente à intensificação do aparato repressivo, mas também às ações de prevenção e desenvolvimento social. A tendência é indicada por uma ampla e inédita pesquisa de opinião, que acaba de ser divulgada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República.”

Abaixo, alguns dos resultados da pesquisa:

Os direitos dos presos e bandidos devem ser respeitados?
Sim 70%
Não 26%
Não sabe 4%

Pena de morte
Contra 51%
A favor 45%
Não sabe 4%

“Bandido bom é bandido morto”
Não concorda 47%
Concorda 43%
Não sabe 10%

“Direitos humanos deveriam ser só para pessoas direitas”
Não concorda 62%
Concorda 34%
Não sabe 4%

“A atividade policial é muito perigosa: é bom que a polícia atire primeiro para fazer perguntas depois”
Não concorda 88%
Concorda 9%
Não sabe 3%

“Homem que é homem divide igualmente todas as obrigações domésticas com sua mulher”
Concorda 84%
Não concorda 11%
Não sabe 5%

“A homossexualidade é uma doença que precisa ser tratada”
Não concorda 55%
Concorda 36%
Não sabe 9%

“Mulher que vira lésbica é porque não conheceu homem de verdade”
Não concorda 66%
Concorda 22%
Não sabe 12%

Pra finalizar, comentários de Ariel de Castro Neves, coordenador do Movimento Nacional de Direitos Humanos:

“Até cinco anos atrás, quem ousava defender direitos de presos ou de menores infratores era criticado nas ruas. Agora, as pessoas entendem que esses militantes também defendem as mulheres vítimas de violência, as crianças vítimas de exploração sexual e a garantia de direitos sociais, como moradia e emprego. A reação negativa diminuiu. E isso me faz ter esperanças de um futuro mais justo e igualitário.”

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Virtudes

Dezembro 16, 2008 · Deixe um comentário

Tento ser alguém com quem ninguém sinta vergonha de qualquer parte de si mesmo. Não sei se consigo. Tento ser capaz de observar as ações alheias sem nunca me sentir ameaçado ou assumir uma postura defensiva, mesmo que assumam essa postura contra mim. Às vezes, consigo. Tento perceber os outros através do contexto de suas próprias vidas, não através do meu. Quase nunca consigo. Mas vou continuar tentando. Porque, gostando ou não, precisamos viver com as conseqüências um do outro. Uma pessoa não se constrói sozinha, por mais “pecados” ou “boas ações” que carregue consigo. O mundo inteiro faz de mim o que sou, e faz dos outros o que eles são. Não podemos apagar as décadas de vida que nos transformaram. Podemos apenas assumir a responsabilidade – coletiva, não individual – do que somos e do que fazemos. A culpa de um é a culpa de todos. Ao criticar a sociedade, tenho plena consciência de criticar a mim mesmo. Tento não competir por níveis mais “elevados” de moral. Aos poucos, vou aprendendo. A menos que queira matar todos que não vivem pelos meus padrões ou esteja preparado para agüentar um impasse indefinidamente, devo aceitar os outros em seus próprios termos. Não quero viver em um mundo de conflitos. Não quero viver em um mundo hierárquico. Quero a anarquia das relações humanas.

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Vergonha

Dezembro 13, 2008 · Deixe um comentário

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

“Onde é que há gente no mundo?”

Aqui, Fernando – ou Álvaro, para os mais caprichosos. E aqui também.

Segredo 1
“Às vezes, eu sinto que estou traindo meu namorado
quando durmo com meu marido”

 Segredo 2
“A única carne que consigo comer sem sentir culpa é galinha
só porque eu acho que elas são criaturas malvadas”

 Segredo 3
“Você roubou a minha idéia de casamento temático.
Então agora minha temática será: qualquer coisa melhor que o seu casamento”

Segredo 4
“Quando vejo um avião eu presto muita atenção… caso ele caia.
Para eu poder ser uma testemunha (na TV)”

 Segredo 5
“Quando meu namorado me dá palmadas, minha feminista interior chora
 Mas é uma sensação incrivelmente boa”

Segredo 6
“Eu roubo dinheiro da instituição de caridade sem fins lucrativos na qual trabalho”

Segredo 7
“Eu mostro o dedo à minha mulher quando ela não está olhando”

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Vítimas

Dezembro 1, 2008 · 6 Comentários

Milhões de mulheres ao redor do mundo idealizam a si mesmas, passam fome, e até fazem operações cirúrgicas para viver de acordo com os padrões sociais de beleza. Quem estabelece esses padrões? Nós estabelecemos – Nós, a indústria da moda e da imagem, com nossas capas de revistas, dietas milagrosas, e celebridades sinteticamente projetadas.

Por que isso é interessante para nós? Primeiro, porque insegurança vende. Quanto mais inalcançáveis os padrões que estabelecemos para vocês, pior vocês se sentirão, e mais dos nossos produtos vocês acreditarão precisar. Em segundo lugar, é importante para nós mantê-las pensando em si mesmas como um corpo, primeiro e acima de tudo. Todas as nossas imagens de mulheres como corpos, da arte clássica às propagandas de perfume do século vinte-e-um, conspiram para mantê-la pensando dessa maneira. Se você se considera um corpo, e você mede seu próprio valor dessa forma, então você acreditará que nossos acessórios corporais são o que você mais precisa para ser feliz… e não uma vida excitante, projetos criativos, um mundo belo e seguro, etc.

Pelo bem desses padrões absurdos de beleza, nós estamos preparados para matar centenas de mulheres por anorexia a cada ano, para tornar milhares de outras doentes por bulimia e mal-nutrição, para convencer algumas a pagar milhares de dólares por cirurgias plásticas e perigosos implantes de silicone, para incentivar aquelas que não são brancas a usar produtos que supostamente as tornarão mais parecidas com as rainhas brancas da beleza, para fazer milhões de mulheres e garotas ao redor do mundo sentirem-se miseravelmente inseguras com relação a seus corpos e a si mesmas. E os desejos dos homens são moldados por nosso condicionamento também, e eles acabam perseguindo uma imagem glamourosa de mulher que não existe na vida real, enquanto desperdiçam as verdadeiras belezas ao seu lado nas ruas e em suas casas.

E porque nós temos todo esse poder? Porque em um mercado competitivo de livre concorrência, nossa impiedade em nome dos lucros nos trouxe maiores recompensas do que para nossos concorrentes mais humanos. Nosso modo funciona na economia capitalista, nosso modo vende mais, ele domina e conquista em um sistema onde o dinheiro vale mais do que a felicidade humana.

É só não prestar atenção em comerciais como os do vídeo abaixo, e tudo continuará como está: uma beleza.

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Vitrine

Novembro 27, 2008 · 1 Comentário

Trabalho para Perestroika Creative School:

Keep Shopping

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Virtual

Novembro 25, 2008 · 1 Comentário

The perfect onesOs perfeitos. Os lindos. Os corretos, os justos, os nobres. Os que nunca dão escândalo em restaurantes, os que nunca fazem secretamente algo do qual se envergonhariam. Os normais. Os saudáveis. Os que sempre planejam o futuro. Os contentes. Os felizes. Os que trabalham duro e colhem os benefícios, os que escovam os dentes e passam fio dental após cada refeição. Os bem-ajustados. Os populares. Os que nunca desapontam, os que crescem e se tornam presidentes. Os sortudos. Os de pele perfeita, dentes perfeitos e rostos perfeitos. Os que querem o que têm e têm o que querem.

Eles não existem. E os que posam como eles são muito mais frustrados do que nós.

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Vol – versão 2

Novembro 24, 2008 · 1 Comentário

Um segundo tipo de roubo legítimo é o plágio.

Fomos ensinados desde a infância de que não há nada de novo sob o sol. Quando uma criança tem uma idéia excitante, uma pessoa mais velha rapidamente apontará que essa idéia já foi pensada e não funcionou, ou que outra pessoa não apenas a pensou, mas também a desenvolveu de uma forma que a criança jamais poderia ter feito. A mensagem, enviada pelos métodos de instrução utilizados no Ocidente, é clara: aprenda e escolha entre as idéias e crenças já em circulação, ao invés de procurar desenvolver as suas próprias.

Apesar dessa atitude, ou talvez por causa dela, somos extremamente possessivos para com nossas idéias. O conceito de propriedade intelectual é ainda mais integrado na mente coletiva do que o conceito de propriedade material. Muitos pensadores já afirmaram que a propriedade material é um roubo, mas poucos ousaram dizer o mesmo sobre suas idéias.

E, de uma forma ou outra, a noção de “propriedade intelectual” afeta nosso comportamento para pensar criticamente e aprender com nossa herança artística e filosófica.

Em primeiro lugar, pouca distinção é feita entre os pensadores e seus pensamentos. O culto à personalidade impede qualquer consideração útil sobre os trabalhos dos pensadores: adoradores de uma personalidade jurarão fidelidade a todas as suas idéias; e objeções contra o pensador suscitarão preconceitos contra seus pensamentos. Mas a ênfase na posse da idéia pelo autor é irrelevante para mensurar o valor de suas preposições ou de sua obra de arte. O autor em si é completamente independente de suas obras, que adquirem vida própria assim que são divulgadas ao mundo.

Os fatores que afetam as palavras e os feitos de um indivíduo são muitos e variados, entre eles o clima sócio-cultural da época e a contribuição de outros indivíduos. Dizer que uma idéia teve sua origem primordial nas profundezas de um único ser é simplificar grosseiramente. Mas estamos tão acostumados a declarar itens e objetos como sendo nossos, e a aceitar tais declarações de outras pessoas, graças à natureza competitiva que a vida assume em torno de um mercado econômico, que parece natural fazer o mesmo com nossas idéias.

Em segundo lugar, a tradição de reconhecer direitos de propriedade intelectual resulta na deificação do “pensador” ou do “artista”. Quando idéias são associadas a determinados nomes (e sempre aos mesmos nomes), é sugerido que pensar criativamente é uma habilidade pertecente a poucos indíviduos. A glorificação do artista em nossa cultura, por exemplo, que inclui o estereótipo de um visionário excêntrico no avant garde da sociedade, encoraja as pessoas a acreditar que os artistas são diferentes dos outros seres humanos. Na verdade, qualquer um pode ser um artista. E todo mundo é, de certa forma. Mas somos levados a crer que ser criativo e pensar criticamente são talentos que poucos indivíduos possuem. E aqueles entre nós que não são considerados artistas ou filósofos pela comunidade não se esforçarão muito para desenvolver tais habilidades. Conseqüentemente, nos tornamos dependentes de idéias alheias, e permanecemos contentes em sermos meros espectadores dos trabalhos criativos.

O último efeito colateral de nossa associação de idéias a indivíduos é o seguinte: restringir a aceitação dessas idéias apenas em suas formas originais. Os estudantes que aprendem a filosofia de Descartes são encorajados a aprendê-la em sua forma ortodoxa, ao invés de dividi-la e assimilar as partes que acreditam ser relevantes para sua própria vida e seus próprios interesses. A deferência ao “pensador original” faz com que os pensamentos e teorias sejam preservados estaticamente, sem nunca serem postos em novos contextos que poderiam revelar novos insights. Mumificadas, muitas teorias se tornam completamente irrelevantes para a existência moderna, quando poderiam dar novos sopros à vida se fossem tratadas com menos reverência.

Já que é assim, o que podemos fazer para diminuir tais problemas? Plagiar, é claro.

O plágio é um método especialmente eficaz de apropriação e reorganização de idéias, e pode ser uma ótima ferramenta para encorajar o pensamento crítico nos outros. É um método revolucionário que simplesmente não reconhece a noção de “propriedade intelectual”.

O plágio concentra sua atenção no tema, não no autor, tornando impossível verificar as origens genuínas do material, se é que tais origens podem ser traçadas. Assinando um novo nome, ou nome nenhum, a um texto, o plagiador põe o material em um contexto totalmente diferente, gerando novas perspectivas e pensamentos sobre o assunto (procure o conto Pierre Menard, autor del Quixote, de J. L. Borges). O plágio também torna possível a combinação das melhores ou mais relevantes partes de um número qualquer de textos, criando um novo texto com várias das virtudes dos textos antigos – e algumas novas, também, já que a combinação de diferentes fontes cria efeitos imprevisíveis, além de desencadear significados e possibilidades que estavam dormentes há anos. Finalmente, e acima de tudo, o plágio é a reapropriação de idéias: quando um indivíduo plagiariza um texto considerado “sagrado” por aqueles que acreditam na propriedade intelectual, ele nega que exista uma diferença hierárquica entre si mesmo e o pensador em questão. Toma as idéias como suas, para expressá-las como bem entender, ao invés de tratar o autor como uma autoridade. Ele nega, de fato, que há alguma diferença entre o pensador e o resto da humanidade. Pois torna o material do pensador propriedade da humanidade inteira.

Então, se realmente não há “nada de novo sob o sol”, aja de acordo. Pegue, nas teorias e doutrinas dos que vieram antes, o que parece relevante para sua vida e suas necessidades. Não tenha medo de reproduzir letra por letra o que lhe parecer perfeito, para partilhar com outros o que também pode beneficiá-los. Ao mesmo tempo, não tenha medo de desenterrar idéias de fontes diferentes e rearranjá-las de maneiras que você considera mais úteis e excitantes, mais relevantes para você mesmo. Crie um corpo personalizado de pensamento crítico e criativo, de elementos reunidos de várias fontes, ao invés de escolher entre uma das ideologias pré-fabricadas que lhe são oferecidas.

Afinal de contas, nós que temos idéias ou elas é que nos têm?

Palavras, convenções musicais e artísticas, símbolos e gestos, todas essas coisas são úteis somente porque as mantemos em comum. São moedas de troca da comunicação. Seres humanos, como tudo o mais no mundo, não são entidades isoladas: cada um de nós existe como parte de uma vasta teia, como uma interseção de fios que procede de todas as direções. Nenhum de nós poderia ser o que é se não fosse pelos outros em volta de nós e por aqueles que vieram antes de nós, além do mundo natural por trás. Nossos pensamentos são construídos pelas linguagens que são faladas ao nosso redor, nossos valores e histórias pessoais são forjados pelo que encontramos no mundo; nós representamos nossas experiências e memórias para nós mesmos nas configurações desenvolvidas pela civilização que nos criou.

E mesmo assim, não significa que nada é original. Pelo contrário, tudo é. Pois cada expressão, cada ação, por mais que repetida, responde a um ponto único da teia das relações humanas. E ao mesmo tempo, isso significa que a recontextualização de elementos pré-existentes (o plágio) é essencial a todas as formas de comunicação. Pois do que consiste nossos diálogos senão de palavras copiadas e reorganizadas de forma a fazer sentido em um novo contexto? E se toda expressão é ao mesmo tempo copiada e única, parece absurdo tentar separá-la em uma ou outra categoria. A linha entre a imitação e a inovação é tão tênue que toda e qualquer distinção está fadada a ser arbitrária. E se esse é o caso, deixemos aos detalhistas para que tentem decifrar quem foi o primeiro a arranjar palavras e notas musicais em uma ordem particular. Muito mais importante, para nós, é o que podemos fazer com essa combinação de elementos compartilhados.

Alguns clamam para si os direitos de propriedade sobre combinações que acreditam ter sido os primeiros a aplicar. Muitos justificam insistindo que essas combinações são a expressão perfeita de suas emoções e experiências, e aqueles que as lêem ou as escutam estão tendo acesso direto a suas almas. Mas o fato é que um poema ou uma música sempre tem um significado diferente para o leitor ou ouvinte do que teve para o compositor ou escritor. Aquele aplica as palavras deste às suas próprias experiências, e vasculha seu coração para ver quais vão ressoar com as emoções únicas que sente. Goste ou não, no momento em que se cria algo e se mostra ao mundo, a criação adquire vida própria nas reações e nas emoções que provoca nos outros – e não responderá a você ou representará você, a não ser por coincidência. Para o escritor, o verdadeiro significado de seu trabalho é o ato de criação em si, no rearranjo e no talhe das formas. Aqueles que esperam reter algum controle dos produtos de sua criação vivem em negação.

Da mesma forma, podemos jogar fora todas as superstições que envolvem a assinatura do autor – a questão da chamada autenticidade, a glorificação da auto-expressão, o conceito de propriedade intelectual – e ver a assinatura como o que ela realmente é: apenas outro elemento da composição. Assinar um trabalho faz parte do processo criativo: oferece um contexto no qual o trabalho será interpretado. Que assinatura poderia realmente capturar as origens completas de um trabalho, considerando todos os diferentes e antigos componentes que deram vida a qualquer obra de arte, todas as relações humanas e inovações que foram necessárias para sua finalização? Se alguém quiser ser honesto, assinaria o nome de uma civilização inteira em uma poesia ou em uma escultura – efetivamente comunalizando o trabalho.

Assim que estivermos livres da idéia de que possuímos expressões, podemos nos concentrar na verdadeira questão de como criá-las, para que nos ajudem a encontrar a nós mesmos e aos outros. E, então, em transformar aquilo que encontrarmos.

Esse texto, assim como qualquer outro desse blog, foi construído roubando-se palavras da língua portuguesa e idéias do senso incomum, e reorganizando-as de formas que me pareceram úteis. Faça o mesmo, se quiser. Qualquer trecho, ou o texto inteiro, é livre para ser copiado e assinado com outro nome, ou com nome nenhum. Essas palavras e idéias não são minhas, nem suas. São nossas.

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Vol – versão 1

Novembro 21, 2008 · 1 Comentário

Uma boa idéia deveria estar disponível a todos. Deveria pertencer a todos.

O mesmo vale para peças de arte e entretenimento, como músicas, filmes e livros. Leis de copyright e restrições similares não deveriam impedir a distribuição e a recombinação de idéias. E a pirataria moderna só demonstra o quanto mais e mais pessoas estão dispostas a pensar dessa forma.

Pirataria é roubo, sim. Mas um roubo legítimo.

Abaixo, trechos de entrevista com Matt Mason, economista inglês:

Muitas indústrias querem prender os piratas. Não tem medo de ser preso?
Não, porque teriam de prender todo mundo que pratica pirataria. E acho que não querem mandar todos os garotos que estão baixando músicas para a cadeia. Tudo que fazemos, desde encaminhar um e-mail com uma imagem até tirar uma foto com uma TV no fundo, pode representar violação de direitos. Mas as pessoas a que me refiro como piratas são aquelas que usam informação de formas realmente não convencionais.

São os jovens, principalmente?
Sim, porque download, software livre, creative commons e o movimento contemporâneo da pirataria fazem parte da cultura jovem. É coisa de gente nova, muito insatisfeita e muito apaixonada pelo que faz, e que quer mudar o mundo e fazer as coisas do seu jeito. A cultura jovem é como um experimento social, em que sempre há novas abordagens para operar o mundo real, fora do mainstream. Se essas idéias são boas, e fazem sentido para muita gente, elas se espalham. É da juventude que vêm as respostas sobre como competir e sobreviver quando a informação não é mais limitada pelas velhas leis de propriedade intelectual.

Por que você entende a pirataria como um velho ingrediente do capitalismo?
Existem vários exemplos disso. Quando os EUA foram fundados, a política oficial do governo era não reconhecer nenhum tipo de propriedade intelectual, patentes, marcas nem nada. Então começaram a construir suas indústrias contrabandeando o know-how da Revolução Industrial européia. Isso é uma das razões que os levaram a se industrializar tão rapidamente [...] Se você for buscar na história de muitas indústrias, também verá a pirataria como um ingrediente realmente importante.

Por exemplo?
Quando Thomas Edison inventou o fonógrafo, os músicos que ganhavam dinheiro tocando ao vivo acusaram-no de roubar seu trabalho e fazer pirataria. Segundo eles, a invenção iria acabar com os músicos e, consequentemente, com a música. Exatamente o que alguns artistas dizem hoje sobre o download de músicas [...] Mais tarde, Edison criou a tecnologia para produzir filmes e exigiu de quem quisesse usá-la o pagamento de uma licença. Para escapar do pagamento, um grupo de cineastas piratas saiu de Nova York para o oeste para produzir seus filmes sem pagar a licença, até que a patente expirasse. Esses produtores pioneiros criaram os primeiros estúdios de Hollywood.

Mas hoje as grandes empresas temem ser destruídas pela pirataria.
Claro, porque empresas e artistas estão sendo desafiados a se desenvolver, compartilhar e distribuir informação [...] em vez de parar com a pirataria, elas têm de aprender a pensar e agir como os piratas.

Então a pirataria é um parâmetro a ser seguido?
Nem sempre [...] Mas, se ela traz algum tipo de benefício para a sociedade, as empresas têm de pensar: o que podemos fazer para atrair os clientes, apesar da pirataria? O que podemos fazer para que as pessoas procurem os cinemas, mesmo com o download e os dvds piratas? [...] E é isso que todos nós fazemos desde que nascemos: copiar os outros. Seres humanos aprendem a fazer tudo por imitação – a falar, a se comportar. Mas nas últimas décadas surgiu a internet, a maior máquina copiadora de todos os tempos. Uma ferramenta tão poderosa que afeta profundamente toda nossa forma de fazer negócios.

A pirataria, no fim das contas, permite a apropriação da cultura pelo povo e a sua consequente inserção. Quem sai perdendo são as grandes indústrias e a chamada elite intelectual que é contra a partilha de informações. E, cá entre nós, não é nada menos do que merecem.

Vol: do francês, roubo.

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Veganismo

Novembro 15, 2008 · 3 Comentários

“Abre a boca e fecha os olhos”.
“Sim, senhor”.

Quando se trata de comida, essa é a resposta mais comum. Porque é mais fácil obedecer e continuar com velhos paradigmas. Porque é mais fácil ignorar, considerar tudo muito justificável e natural, e continuar com velhos preconceitos. 

Mas deixa eu contar um segredo. Um segredo que não falaram pra sua vó. Que não contaram pra sua mãe. Mas que agora você sabe:

É possível viver bem sem comer carne.

Sim, é possível. E não só é possível como é até mais saudável. E não só pra você.

Sim, eu sei, os animais comem uns aos outros. Mas eu sei, assim como você também sabe, que você nunca usa os costumes dos animais para justificar os seus. E esse caso não deveria ser uma exceção. Animais comem uns aos outros, é óbvio. Eles precisam. Você não. Animais também estupram uns aos outros. E isso não torna o estupro natural, nem justificável.

Vou repetir: é possível viver bem sem comer carne.

“Ok”, você diz. “Eu não preciso, mas eu quero. Eu quero e posso”.

É claro que você pode. Eu também posso. Qualquer um pode. É possível comer frango, porco, vaca, peixe, cachorro, gato, rato, cavalo, passarinho, macaco, seres humanos. Tudo isso é perfeitamente possível. Mas e aí? Poder é uma justificativa aceitável?

Mais uma vez eu sei, e você também sabe, que não é. Porque subjugar contra a vontade – e nenhum animal tem vontade de ser morto e servido em um prato – é um preconceito como qualquer outro. Como o racismo. Como o sexismo. Ele tem até nome, pra quem nunca ouviu falar: especismo.

E isso nos leva a um segundo segredo: matar um animal para comer sua carne, sendo que não precisamos dela para sobreviver e estaremos fazendo isso apenas por um capricho do nosso apetite, ou por preguiça e conformismo, é um ato de preconceito, puro e simples. Você pode até não se importar com o rótulo. Mas você não pode negá-lo.

Por que razão, afinal de contas, animais não deveriam ter direitos fundamentais? Sério. Pense se há algum motivo.

E quer saber? Se quiser continuar comendo carne, coma. Só você mesmo tem o direito de se condenar. Mas por favor, abra os olhos. Não enfie tudo goela abaixo sem nunca se perguntar o porquê. O leite não vem da caixinha, a salsicha não vem do freezer, o bife não vem do espeto e o ovo não vem do armário. Por trás de cada um deles houve um sofrimento totalmente desnecessário.

Desconfie. Questione. Pesquise. Perguntar não dói. Nesse caso, ao menos, até causa o efeito contrário.

Garfo

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Vulture

Novembro 14, 2008 · 2 Comentários

Pirâmide

“O Capitalismo costumava ser como uma águia, mas agora é mais como um abutre. Ele costumava ser forte o suficiente para sugar o sangue de qualquer um, dos fortes ou dos fracos. Mas agora ele se tornou mais covarde, como o abutre, e só pode sugar o sangue dos indefesos. Se as nações do mundo se libertarem, o Capitalismo terá menos vítimas, menos para sugar, e se tornará cada vez mais fraco”.
- Malcolm X

“O Capitalismo é a crença inacreditável de que os homens mais perversos irão fazer as coisas mais perversas em nome do bem comum”.
- John Keynes

“Onde quer que haja grande concentração de propriedade, há uma grande desigualdade. Para cada homem rico deve existir, no mínimo, quinhentos homens pobres, e a riqueza de poucos supõe a indigência de muitos. Essa riqueza excita a indignação dos pobres, que são constantemente impelidos a querer e a invejar, a invadir suas posses… A apropriação de manadas e rebanhos que introduziu uma desigualdade na fortuna foi o que fez nascer um governo regular. Enquanto houver propriedade não pode haver governo, cujo fim é assegurar a riqueza de poucos e defender os ricos dos pobres”.
- Adam Smith

Vulture: do inglês, abutre.

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Vice-versa

Novembro 13, 2008 · Deixe um comentário

Noam Chomsky é o mais respeitado pensador vivo do Anarquismo, além de ser considerado o pai da linguística moderna.

Traduzo aqui um trecho de sua entrevista The United Stations Has Essentially a One-Party System:

SPIEGEL: Para você, então, Republicanos e Democratas representam variações insignificantes da mesma plataforma política?

CHOMSKY: Claro que há diferenças, mas elas não são fundamentais. Ninguém deveria ter ilusões. Os Estados Unidos têm um sistema essencialmente unipartidário, e o partido no poder é o partido comercial.

SPIEGEL: Você exagera. Em quase todas as questões vitais – desde a taxação dos ricos à energia nuclear – há posições diferentes. Sobre as questões de guerra e de paz, ao menos, os partidos diferem consideravelmente. Os Republicanos desejam lutar no Iraque até a vitória, mesmo que dure 100 anos, de acordo com McCain. Os democratas planejam uma retirada.

CHOMSKY: Vamos olhar as ‘diferenças’ mais de perto e veremos o quão limitadas e cínicas elas são. O falcão diz: se continuamos, podemos vencer. A pomba diz: isso está nos custando muito caro. Mas tente encontrar um político americano que diga francamente que esse ataque é um crime. A questão não é se nós ganhamos ou não, se os custos estão caros ou não. Lembra-se da invasão russa ao Afeganistão¹? Nós [americanos] tivemos um debate sobre se os russos poderiam vencer a guerra ou se ela saía muito cara? Esse deve ter sido o debate no Kremlin, ou em Pravda. Mas esse é o tipo de debate que você poderia esperar em uma sociedade totalitária. Se o General Petraeus² pudesse alcançar no Iraque o que Putin³ alcançou na Chechênia, ele seria coroado rei. A questão chave aqui é se nós nos aplicamos os mesmos padrões que aplicamos aos outros.

¹ 1979 – 1988.
² Atual Commander, U.S. Central Command.
³ Atual Primeiro Ministro da Rússia.

O restante da entrevista pode ser conferido aqui.

Atualização (14/11):

Palavras de Barack Obama em um debate presidencial no dia 8 de outubro:

“Se Osama Bin Laden estiver sob nossa mira e o governo paquistanês não for capaz ou não quiser entregá-lo, então acho que nós devemos agir, e devemos pegá-lo. Nós mataremos Bin Laden. Nós destruiremos a Al-Qaeda – essa deve ser a prioridade de nossa segurança nacional”. Veja aqui.

Ou seja, concordo com Chomsky.

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Vo(mi)tando

Novembro 13, 2008 · Deixe um comentário

EUA 2008

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Vizinhança

Novembro 11, 2008 · 1 Comentário

Segundo o narrador de Cien Años de Soledad, um condomínio fechado é um “gallinero electrificado”.

É uma ótima definição, na qual o meu se encaixa. A diferença reside na grande diversidade animal: na falta de frangos, há aqui humanos, cachorros, gatos, pássaros, quero-queros, lagartixas, formigas e baratas (e demais artrópodos e anelídeos). O lugar é uma zona de guerra. Os humanos reconhecem apenas a sua própria legitimidade, e lutam para matar, expulsar ou aprisionar todas as demais espécies. Estas se preocupam apenas em sobreviver, às vezes devorando algum indivíduo das outras.

Três dessas espécies merecem destaque: os humanos, os gatos de rua e os pássaros. Seu relacionamento é o seguinte: os humanos caçam os gatos de rua, que caçam os pássaros, que cantam para os humanos. Os humanos odeiam os gatos de rua por vários motivos. Primeiro, eles não têm o direito de estar ali (não compraram terrenos nem assinaram contratos). Segundo, eles miam alto demais quando estão morrendo de fome (ninguém consegue dormir). Terceiro, eles rasgam sacos de lixo para procurar comida (que sobrou e precisa apodrecer a céu aberto em outro lugar). E quarto, eles caçam os pássaros (que são bonitinhos e existem para cantar para os humanos).

Um desses gatos é meu vizinho. Comecei a ouvir seu miado de socorro há algumas noites, vindo da casa em construção em frente à minha. Levo comida para ele. Gostaria de pegá-lo, levá-lo ao veterinário e encontrar alguém que o criasse, como fiz ano passado com um recém-nascido, mas ele tem medo de mim. Tem poucas semanas de vida, mas já aprendeu a se esconder e a fugir de seres humanos. Sabe que não é bem-vindo por mais ninguém. Sabe que o fato de estar vivo não é o suficiente para merecer respeito e cuidados. Sabe que seus vizinhos não reconhecem os seus direitos fundamentais, simplesmente porque ele é de outra espécie e não pagou para estar ali.

E quando ele caça um pássaro, e o come, a vizinhança fica estarrecida. A mesma vizinhança que arrancou as casas de todos os pássaros que moravam ali antes de ela chegar. A mesma vizinhança que não se importa com os quero-queros, porque seu canto não é agradável o suficiente e eles não cabem em gaiolas. A mesma vizinhança que dá a seu animal de estimação uma ração feita de aves que não são tão bonitinhas ou fofinhas quanto os pássaros. A mesma vizinhança que paga por um pedaço de carne cuja falta, no fim das contas, nem faria com que passasse fome.

A mesma vizinhança que se diz horrorizada com o racismo e que apelida a quadra da frente, composta por pessoas pobres e de cor, de ‘Planeta’, em alusão a ‘Planeta dos Macacos’.

Um galinheiro é um lugar lotado de animais estúpidos que não faz a mínima idéia do que acontece lá fora. Uma cerca elétrica é uma jaula, uma prisão, que dá uma falsa sensação de propriedade e liberdade. Gallinero electrificado. É ou não é uma definição perfeita?

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Viveiros

Novembro 6, 2008 · 3 Comentários

Não é difícil ter uma idéia de como a ordem mundial é nociva. É só olhar como ela afeta a vida dos outros, além de nós, que nela precisam viver – os animais – e fazer uma comparação.

Se você é de classe média, por exemplo, os animais que você conhece melhor (além daqueles dos filmes infantis e dos comerciais animados) são provavelmente os que ocupam o nível correspondente na hierarquia não-humana: os animais de estimação, os internos de zoológico, os performistas de circo e os mascotes esportivos. Assim como a burguesia, eles parecem ter uma vida fácil: descansam o dia todo, comem, dormem e brincam com seus donos. Mas essa não é a vida para a qual esses animais foram preparados pelos últimos milhões de anos de evolução. Cachorros têm quatro patas para correr através de descampados e caçar suas presas, não para agarrar frisbees durante uma hora por semana. Papagaios têm asas para voar sobre as selvas, não para ficar de pé, de asas cortadas, em pequenas jaulas, com nada para fazer para se manterem ativos além de cantarem para si mesmos e aprenderem fragmentos insignificantes de linguagens menos musicais. Gatos têm garras para lutar, caçar e afiá-las onde bem entenderem; têm testículos e ovários para que possam marcar territóritos, fazer sexo e criar filhotes. Corte tudo isso fora e os deixe trancados dentro de casa, e eles ficarão irritados, patéticos e gordos pela falta do que fazer além de comer ração enlatada e padronizada que não podem nem mesmo caçar. Espera-se que os animais domésticos sejam os bobos da corte e os cortesãos da residência moderna, que providenciem entretenimento e diversão. Suas vidas, e até mesmo seus corpos, são ajustados de acordo com essa premissa. Seu papel não é o de serem animais, em toda a complexidade que isso implica. Seu papel é o de serem brinquedos.

Um rápido olhar para os humanos de classe média revela o quão similar é a nossa situação. Nós também vivemos isolados uns dos outros em pequenas caixas climaticamente controladas, pequenos aquários com simulação de folhagem chamados apartamentos. Nós também somos alimentados em comidas padronizadas, produzidas em massa, que surgem aparentemente do nada. Nós também não damos vazão às nossas necessidades espontâneas e selvagens, esterilizados e aparados pela necessidade de se viver em cidades congestionadas, sob convenções cultural, legal e socialmente restringidas. Nós também não podemos nos deslocar para longe de nossos abrigos, encoleirados em nossos empregos de tempo integral, contratos de locação, cercas, grades e fronteiras nacionais. E assim como nossos animais de estimação, nós aprendemos a nos comportar, a sermos adestrados e conformados. Aprendemos a nos adaptar a esse pesadelo, tornando-nos gordos, irritados, e inexpressivos.

Muito menos afortunados do que nós, prisioneiros castrados, são os animais que formam o equivalente ao proletariado não-humano: as galinhas aprisionadas vivendo em meio à própria merda em fábricas de ovos com seus bicos arrancados para que não furem umas às outras. Os coelhos que têm seus olhos sistematicamente carbonizados para testar a eficiência de um shampoo. Os bezerros da carne de vitela que passam toda sua miserável existência em pequenas caixas de madeira. O papel desses animais corresponde ao dos trabalhadores das fábricas, aos lavadores de louça temporários,  aos minimamente remunerados vendedores de pipoca de cinema. E não importa como o chefe individual de cada um deles possa ver as coisas, a visão do mercado os considera com o mesmo desinteresse calculado. A mesma fome de dinheiro insensível que torna possível à indústria da carne considerar o holocausto anual de milhões de animais como aceitável e justo é o que os mantém lutando contra as demandas por melhores condições de trabalho e salários mais altos. E assim como vacas e frangos foram cuidadosamente reproduzidos, de uma forma tal que são incapazes de sobreviver fora de suas jaulas, o trabalhador moderno não tem mais nenhuma idéia de como seria sua vida fora do mundo de plástico e concreto ou de como aplicar suas energias longe do som de um chicote. Aonde ele iria, afinal de contas? Há alguma terra inabitada ou não-reclamada para a qual ele poderia fugir? E que diferença faria, se fugisse? Não iria, ele também, destruir essas terras, levando a elas os valores de dominação com os quais foi envenenado por seus chefes? No fim, ao menos que considere a total rejeição do sistema capitalista, sua fuga seria apenas mais um avanço da maré de concreto que varre o globo.

Há também os animais selvagens que ainda sobrevivem em ambientes infestados por vazamentos de óleo, garrafas de plástico descartadas, poluição do ar e, claro, rodovias. Enquanto a urbanização marcha à frente impiedosamente, destruindo os recursos de seus habitats naturais, eles aprendem a viver do lixo humano. Ou então morrem. Pombos constróem ninhos com tocos de cigarro ao invés de ramos. Ratos aprendem a viver em esgotos e a se adaptar de acordo. Baratas proliferam como os abutres da nova era. Esses animais urbanos ocupam o mesmo nível na sociedade do que os moradores de rua, coletando as essências da vida nos restos, ainda que certamente se dêem melhor do que suas contrapartes humanas. Os do subúrbio – os esquivos guaxinins, esquilos e marsupiais que sobrevivem em cantos esquecidos de terras conquistadas, vivendo do que sobra do natural e dos excessos da burguesia – podem ser comparados aos assentados, aos fazendeiros orgânicos, aos punks, a todos os coletores metropolitanos da resistência underground. As espécies remanescentes de animais verdadeiramente selvagens, como os golfinhos, os caribus e os pinguins, são como os poucos povos indígenas existentes no mundo que ainda não perderam sua cultura ou foram cercados por grades. Para todos eles, o futuro é incerto.

Mas tudo isso não é para dizer que nós nos desviamos de algum grande plano preparado para nós pela ‘Mãe Natureza’, e que a nossa medida de felicidade e de saúde deva estar em conformidade com o que é ‘natural’. Afinal de contas, sempre que seres humanos tentam descrever o que é a Natureza, eles projetam as leis que sua própria sociedade estabelece, ou incluem tudo aquilo que pensam faltar em sua civilização. Além disso, a própria natureza é algo que muda constantemente: a essa altura, o habitat natural de um poodle realmente é uma coleira e uma casinha de cachorro. Se nós destruímos o mundo natural com nossa ‘civilização’, então em uma análise final isso também faria parte do ‘natural’ (pois há alguma coisa que não proceda da natureza?). A questão não é como voltar a se submeter ao natural. É, ao invés disso, como nos reintegrarmos ao mundo de uma forma que funcione. Podemos fazer um mundo no qual humanos e animais possam viver em harmonia entre si, sem divisões entre eles, sem distinções entre o natural e o civilizado, entre o familiar e o estrangeiro? Podemos escapar das florestas de ferro para aquelas, verdes e luxuriantes, que permanecem em nosso pensamento?

Banksy

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Vth

Novembro 5, 2008 · Deixe um comentário

Remember, remember the Fifth of November,
The Gunpowder Treason and Plot,
I know of no reason
Why the Gunpowder Treason
Should ever be forgot.

Guy Fawkes, Guy Fawkes, t’was his intent
To blow up the King and Parli’ment.
Three-scores barrels of powder below
To prove old England’s overthrow;

By God’s providence, he was catch’d
With a dark lantern and burning match.
Holloa boys, holloa boys, let the bells ring.
Holloa boys, holloa boys, God save the King!

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Versos em Viena

Outubro 31, 2008 · 1 Comentário

Before Sunrise (Antes do Amanhecer) é uma obra de arte.

É um filme minimalista: Jesse, um americano, e Céline, uma francesa, se conhecem em um trem e resolvem passar uma noite juntos em Viena – e passar uma noite juntos não significa, necessariamente, fazer sexo.

Eles conversam. Se conhecem. Improvisam. E é impossível não se identificar e identificar a pessoa amada nos personagens. É romântico, sim. E poético, também. Mas não é piegas. Até porque as situações e as atuações são extremamente naturais. Como os versos abaixo, feitos por um poeta de rua.

Se já viu esse filme, veja Before Sunset (Antes do Pôr-do-Sol). Se já viu esse também, veja Waking Life.

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Verdade

Outubro 28, 2008 · Deixe um comentário

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Verbas

Outubro 21, 2008 · Deixe um comentário

Na página 21 da CartaCapital dessa semana, na nota Pobreza globalizada, há o seguinte trecho:

“Segundo o senegalês Jacques Diouf, diretor da FAO, 30 bilhões de dólares anuais – menos de 1% do valor despejado nos bancos [para tentar consertar os estragos na bolsa] – bastariam para recuperar a agricultura nos países pobres e evitar a fome e os conflitos que dela resultarão. Por 40 bilhões, pode-se também comprar 250 quilos de grãos para cada uma dessas pessoas, o suficiente para alimentá-las por um ano”.

Menos de 1%. E já se diminuiria a fome no mundo.

Por que será que, enquanto 5 trilhões de dólares são doados aos bancos, não se separa ao menos 1% dessa verba para recuperar a agricultura dos países subdesenvolvidos?

Será que é porque, no mundo capitalista, só se é possível ser rico enquanto outros forem pobres e, consequentemente, dependentes?

Será que é porque os governos que têm a possibilidade de distribuir dólares o façam apenas para manter a estrutura que perpetua essa desigualdade?

Atualização (28/10):

“Perguntava-nos [...] como se explica que tenha aparecido tão rapidamente o dinheiro para resgatar os bancos e, sem necessidade de qualificativos, se esse dinheiro teria aparecido com a mesma rapidez se tivesse sido solicitado para acudir a uma emergência em África, ou para combater a sida… Não era necessário esperar muito para intuir a resposta. À economia, sim, podemos salvá-la, mas não ao ser humano, esse que deveria ter a prioridade absoluta, fosse quem fosse, estivesse onde estivesse”.

José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, 24 de outubro.

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Vossa vontade

Outubro 17, 2008 · 2 Comentários

No vôo de volta do Canadá, sentei ao lado de um Testemunha de Jeová.

Era um cara muito simpático chamado Carlos Augusto. A princípio eu não queria puxar assunto com ele, por pura preguiça. Mas as convenções sociais falaram mais alto e fui obrigado a pedir emprestado sua caneta. Depois de trocar um “o que foi fazer no Canadá?”, descobri sua religião. Aí minha curiosidade falou mais alto e comecei a encher ele de perguntas.

Ele estava disposto a contar tudo. De alguma forma, a religião era o seu trabalho.

Basicamente, é assim: um Testemunha de Jeová acredita na Bíblia. Em toda ela. Cada maldito (ou divino, tanto faz) versículo. Mesmo que, ao longo dos séculos, o telefone-sem-fio das traduções mal-feitas e mal-intencionadas possa ter alterado todo e qualquer vestígio da história original. Algo que, ele me garantiu, não ocorreu.

Sim, ele acredita que Eva nasceu da costela de Adão. E que Noé levou para a arca um casal de cada animal. E nos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, na Torre de Babel, no descanso do Sétimo Dia, na destruição de Sodoma e Gomorra, na idade de Matusalém, em Mateus, em Marcos, em Lucas e em João. O que pra maioria das pessoas não passa de fábula, pra ele é A Lei gravada em papel.

Mas tudo bem. Ele pode acreditar no que quiser. É até compreensível, já que é uma espécie de conforto. Comprou uma moral no mercado das idéias e pôs embaixo do braço. Não me surpreendo que ele acredite na ressurreição de Lázaro ou no fratricídio de Caim. Me surpreendo é com a capacidade de obedecer sem questionar. Sejam as palavras de um livro, de seu pai, de seu padre ou de Seu Pai.

Eu o perguntava: “Tá, tu acredita que o homossexualismo é errado porque Deus não permite sexo para fins não-reprodutivos. Mas e por que Deus não permite sexo para fins não-reprodutivos?”. Ao que ele dizia: “Não sei. Nós não nos perguntamos os motivos de Deus”. A resposta era sempre a mesma.

Cadê o questionamento, Jesus? O que custa parar um pouco e pensar: Tá, mas por que Diabos (em maiúsculo também, pra não dar briga) essa lei é assim? Acredito nela, mas qual é seu motivo? Acredite no que quiser mas, pelo amor de Deus (que às vezes não é pouco), pergunte-se o porquê. E não só quanto à religião. Qualquer lei, autoridade ou hierarquia é questionável. Não sei se alguma resiste a uma análise profunda.

Sei lá. Não acredito que ele tivesse, ou possa vir a ter, a paz de espírito que tanto procura na religião. Acredito que ela requer um mínimo de senso crítico. De desobediência, por assim dizer.

Pai nosso que estais no céu dos cristãos, que eu nunca deixe de duvidar de Ti e daqueles que falam em Teu nome. Amém.

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Voto

Outubro 13, 2008 · Deixe um comentário

Eu anulei meu voto no primeiro turno. E vou anular de novo no segundo.

E na próxima eleição. E na outra depois dela, e na outra depois dessa, e assim por diante. Não me importa quais forem os candidatos nem suas propostas.

Dito isso, escuto o seguinte:

“Se não gosta do governo, porque você mesmo não entra para a política? Se não for eleito, ao menos terá tido sua chance”.

Essa é a mesma desculpa usada para justificar o capitalismo: “se o lavador de pratos não está contente com seu trabalho, ele deve trabalhar mais para poder abrir sua própria cadeia de restaurantes”. Claro, todos tem uma chance de competir, por mais que desigual.

Mas e quanto àqueles que não querem competir?

E com relação ao voto: e quanto àqueles, como eu, que nunca quiseram um poder centralizado nas mãos de um governo? E se nós não temos interesse em governar nem em sermos governados?

É aí que entra a polícia – e os tribunais, e os juízes, e as prisões…

 

A fábula abaixo é uma cortesia Crimethinc.

Três lobos e seis bodes estão discutindo o que terão para o jantar. Um corajoso bode faz a seguinte proposta: “Nós deveríamos pôr isso em votação!”. Os outros bodes temem pela vida dele mas, surpreendentemente, os lobos aceitam. Porém, enquanto todos estão se preparando para votar, os lobos põem três dos bodes de lado. ”Votem conosco para tornar os outros três bodes o jantar”, eles ameaçam. “Do contrário, voto ou não, nós comeremos vocês“. Os outros três bodes ficam chocados com o resultado da eleição: uma maioria, na qual se inclui seus camaradas, votou para que eles fossem mortos e devorados. Eles protestam, ultrajados e aterrorizados, mas o bode que primeiro sugeriu a votação os reprova: “Agradeçam por viver em uma democracia! Ao menos vocês puderam dar sua opinião sobre o assunto”.

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Vísceras

Outubro 9, 2008 · 1 Comentário

Alguém aí já ouviu falar em sepultamento no ar?

O sepultamento no ar é um rito funerário como qualquer outro. Não é o mais estranho, apenas um dos mais incomuns. Funciona assim:

O cadáver deve estar despido. Nada de roupas ou objetos pessoais. O responsável pelo sepultamento precisa de três instrumentos: uma faca de desossar, um martelo (para abrir a calota craniana) e sândalo.

Primeiro, queima-se o sândalo, que serve para atrair os pássaros. Depois, removem-se as entranhas do cadáver. Em seguida, os membros. Tudo é oferecido às aves: carne, pele, até os ossos, triturados com um pouco de cevada. Tudo é tragado pelo céu. Em poucas horas, o cadáver desaparece, restando apenas uma mancha no solo que a próxima chuva se encarregará de lavar.

Método interessante, não? Mas há outro ainda mais: o sepultamento no asfalto.

Acontece assim: um animal (geralmente um cachorro ou um gato) vai parar em uma auto-estrada. Não se sabe como ele chegou lá. Na verdade, ninguém se interessa. O animal, provavelmente faminto, certamente assustado, não faz idéia de que os veículos que vêm em sua direção simplesmente não vão parar. E é atropelado. O motorista que o atropelou, por sua vez, não considera a hipótese de descer do veículo e oferecer ajuda. No máximo, se preocupa em ter arranhado seu carro.

Já temos a causa mortis. Em seguida vem o sepultamento em si.

Outros veículos atravessam a auto-estrada. Alguns desviam do cadáver, outros não. Esses últimos são os sepultadores, os que contribuem de fato com o rito funerário. Tudo é oferecido aos pneus: carne, pele, até os ossos. Tudo é tragado pelos carros. Em poucos dias, o cadáver desaparece, restando apenas uma mancha no solo que a próxima chuva se encarregará de lavar.

Pronto. Sepultamento no asfalto. Mais uma contribuição da infinita engenhosidade humana.

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Vozes

Setembro 23, 2008 · 3 Comentários

Tem pessoas que nunca têm a oportunidade de serem ouvidas.

Moradores de rua, por exemplo. Com exceção do jornal Boca de Rua e de compilações de histórias feitas pela Agência Alice (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação), não conheço nenhum outro meio de comunicação no qual eles possam se expressar.

Por esse motivo, decidi sair por aí para conversar com alguns. Não é difícil encontrá-los: estão em todas as esquinas. Fui até uma praça, sentei ao lado de dois deles e perguntei se estavam interessados em me contar suas histórias. Falei que colocaria tudo na internet. Em pouco tempo, outros três se juntaram a nós, e ficamos conversando por uma hora e meia. Escrevo, aqui, as palavras do Saci Colorado, da Joice, do Dionatan, do Tiago ‘Tatá’ e do Leli.

‘Todo dia acontece alguma coisa que a gente gostaria de contar’, começa o Saci Colorado (o apelido vem do fato de ele só ter a perna esquerda), que não quis dar o verdadeiro nome. ‘Família muito grande’, justifica. ‘Todos eles [seus irmãos] têm sua boa empresa, seu bom carro, sua casa na praia’. Perguntei se eles não o ajudavam. ‘Quando eu precisei, não me ajudaram. Agora, finjo que não reconheço. Tão sempre passando aqui na frente’, diz, apontando pra sinaleira em frente à praça. ‘Fui posto pra fora de casa com 11 anos. Agora tô com 44. Eu tô aqui nessa praça há 20 anos. De uns tempos pra cá, a coisa ficou meio ruim’. Pergunto o porquê. ‘O crack. O crack afetou a nossa vida’.

‘Muitos usuários de crack chineleiam’, concorda Dionatan, de 16 anos. Dionatan não é morador de rua, mas já passou 1 semana fora de casa. ‘Briguei com os meus coroas. Fiquei por aqui. O dono do mercadinho me trazia comida’. Pergunto como ele se virou. ‘Vendia bergamota. Um gordinho de Alvorada trazia pra nós, mas começou a roubar demais. Voltei pra casa, meus pais começaram a chorar, pediram pra não fazer mais isso’. Ainda sobre a questão do crack, ele acrescentou: ‘Roubaram minha magrela. Aí comprei outra, dum usuário, por 5 pila’. Perguntei se ele comprou sabendo que era roubada. ‘Às vezes não é roubada. Às vezes eles ganham’. ‘Não pensa que é roubada só por ser morador de rua!’, censura o Saci. Concordo com ele e pergunto o que fez nos outros 10 anos em que não morou na praça. ‘Tive no Rio Grande do Norte. Fui pra Natal ver o primeiro sol da manhã. Pra ir foi difícil. Fica dois, três dias na estrada e não passa um carro por ti’.

‘Tem uma coisa que eu quero que todos saibam’, comenta Joice, 22 anos. ‘Faz 2 meses que eu ganhei um bebê. Aqui no hospital. Tava com a idéia de trazer embora… não deu. Tiraram o bebê de mim. Uma enfermeira disse que ia me ajudar e não me ajudou. Não sei mais onde ele tá’. Pergunto se foi seu primeiro filho. ‘Não. Foi o quinto. Um mora com a minha vó, outro com o meu irmão, os outros levaram embora’. Pergunto se ela tem contato com algum deles. ‘Não. A gente não tem contato. Durmo num prédio abandonado, eu e o meu tio. Não tem luz. Sobrevivo com o que me dão’. Quando pergunto como ela foi parar na rua, diz: ‘Minha mãe morreu, e foi aí que a minha vida desandou’.

Outro que saiu de casa cedo foi o Tiago, 21 anos, mais conhecido como Tatá. ‘Tô na rua por causa da família. Saí de casa com 13 anos. E não pretendo voltar nunca mais’. ‘Esse aí tem um pezinho atrás’, comenta o Saci, rindo. ‘Não vou negar’, confessa o Tatá. ‘Quando era de menor, fazia arte às ganhas. Parei com as minhas artes, e cada vez que roubam, quem é que toma pau? O Tatá’. Perguntei se ele apanhava da polícia. ‘Cada vez que me vêem, me quebram. Eu não entendo porque sempre sou eu. Desde que roubaram a banca do Carlinhos, eu não tive sossego. Não importa se foi o Tatá, ou não. Toda vez que me vêem. E sempre os mesmos: o Marx e o Lobão’. ‘Esses aí se encarnam’, concorda Dionatan. ‘Já tomei deles. Os caras já vão dando. Tava parado, com uns amigos, nem tinha feito nada’. ‘Eu tenho certeza que o Carlinhos paga eles pra me darem um pau’, complementa Tatá.

‘Nunca tive problema com a polícia’, afirma o Saci. ‘Sou conhecido aqui. Ninguém toca em mim. Só preciso de um troquinho pra viver o dia-a-dia. Compro o jornal todos os dias’, diz, mostrando um exemplar do Diário Gaúcho. ‘Minha cachaça e meu cigarro não podem faltar. Eu não roubo. Eu não sou viciado. Eu sou alcoólatra’. Pergunto sobre a perna. ‘Perdi na rua’, resume. ‘Quem me ensinou a viver na rua foi um ladrão e uma prostituta. Ensinaram as manhas de saber sobreviver. Lá tem comida, faz isso, faz aquilo’. Segundo ele, muitos não o respeitam. ‘Quanto mais rico, menos respeita. Mandam até trabalhar’. Pergunto qual a pior coisa que já presenciou na rua. ‘Um amigo meu matou uma amiga de rua na paulada. Uma grande amiga minha. A pessoa não merecia’. Pergunto o motivo. ‘Ciúme’, ele responde.

‘Esse aí é a minha perna direita’, comenta o Saci, se referindo ao Leli. Leli, 22 anos, também não tem uma perna, mas não mora mais na rua. Pergunto se ele quer contar alguma coisa. ‘Quero. Quando eu morava na rua, a polícia sempre me batia. Uma vez me bateram tanto que fiquei três dias sem poder mexer a perna’. Pergunto se foi por isso que ele a perdeu. ‘Não. Levei um choque e tive que tirar’. ‘Bom’, diz o Saci, levantando-se com a ajuda das muletas e dirigindo-se à sinaleira. ‘Preciso ir trabalhar’. Foi o sinal pra encerrar a conversa. Sem despedidas, cada um seguiu seu caminho.

Só metade foi pra casa.

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Visões

Setembro 19, 2008 · Deixe um comentário

Hoje fui visitar a nova sede da Fundação Iberê Camargo.

Pra quem não sabe, Iberê Camargo foi um artista gaúcho (1914 – 1994), e a Fundação surgiu como divulgadora de suas obras um ano após sua morte.

Resolvi ir até lá porque precisava pensar em uma peça criativa pro museu. E vender uma idéia sem conhecê-la é, no mínimo, mentir. Então, já que é pra convencer alguém a visitar a Fundação, nada mais justo que eu faça o mesmo.

Enquanto observava a exposição, que também contava com as obras do artista Jorge Guinle (1947 – 1987), além das do próprio Iberê, ouvi um comentário muito curioso e muito comum. Diante de uma pintura chamada Adão e Eva, um senhor de meia-idade, acompanhado por dois amigos, disparou: ‘Eu não vejo nada aqui’. Para não parecer um completo leigo, ainda ajuntou o seguinte, meio hesitante: ‘Só a combinação de tons, cores…’.

Essa é a tela à qual ele se referiu:

Eu me pergunto o quê, exatamente, a pessoa espera que um quadro desses a faça ‘ver’. As idéias do artista? A intenção por trás da obra? A história de sua concepção? O sentido da vida? O senhor de meia-idade e seus dois companheiros visitaram o museu em busca de respostas. Queriam pinturas que pudessem ‘entender’, que pudessem ‘decifrar’, e saíram decepcionados, pois não viram nada.

Eu também não entendi este quadro, nem mesmo a combinação de cores. Mas a diferença é que eu não procurava entendimento. Fui atrás de inspiração e visões de mundo diferentes e, por isso mesmo, não saí de lá decepcionado.

‘Isso não é arte’, pensaria nosso amigo que não vê além dos tons. Mas aplaudiria se a exposição contasse com pinturas extremamente realistas, pois além de entendê-las saberia ter sido difícil criá-las. O que me lembra uma interessante observação feita por uma professora do Instituto de Artes da Ufrgs: ‘Quer imitar a realidade? Tira uma foto. É mais rápido e mais eficaz’. Dá o que pensar.

Para ver a versão final da peça criativa, clique aqui.

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V for Verità?

Agosto 4, 2008 · 1 Comentário

V for Verità vem do italiano, e verifica-se como ‘V de Verdade’.

Visivelmente, dá vazão à V for Vendetta (V de Vingança), visão de vanguarda do visionário Alan Moore: V, vilão para uns, virtuoso para vários outros, vestido e venerado como vingança viva, valendo-se de valentia e versatilidade, fez votos de vitimar os vermes viciosos e vaidosos que violentam e violam o vox populi.

V for Verità, por sua vez, é uma vontade de ver e dar voz à verdade, versando e verbalizando sobre as veredas e vaivéns da vida, da virtude e do que vale a pena vaiar.

Validando o velho Henry David Thoreau, em Walden, e o vagamundo Alexander Supertramp, em Into the Wild: ‘Rather than love, than money, than fame, give me truth’.

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