Um segundo tipo de roubo legítimo é o plágio.
Fomos ensinados desde a infância de que não há nada de novo sob o sol. Quando uma criança tem uma idéia excitante, uma pessoa mais velha rapidamente apontará que essa idéia já foi pensada e não funcionou, ou que outra pessoa não apenas a pensou, mas também a desenvolveu de uma forma que a criança jamais poderia ter feito. A mensagem, enviada pelos métodos de instrução utilizados no Ocidente, é clara: aprenda e escolha entre as idéias e crenças já em circulação, ao invés de procurar desenvolver as suas próprias.
Apesar dessa atitude, ou talvez por causa dela, somos extremamente possessivos para com nossas idéias. O conceito de propriedade intelectual é ainda mais integrado na mente coletiva do que o conceito de propriedade material. Muitos pensadores já afirmaram que a propriedade material é um roubo, mas poucos ousaram dizer o mesmo sobre suas idéias.
E, de uma forma ou outra, a noção de “propriedade intelectual” afeta nosso comportamento para pensar criticamente e aprender com nossa herança artística e filosófica.
Em primeiro lugar, pouca distinção é feita entre os pensadores e seus pensamentos. O culto à personalidade impede qualquer consideração útil sobre os trabalhos dos pensadores: adoradores de uma personalidade jurarão fidelidade a todas as suas idéias; e objeções contra o pensador suscitarão preconceitos contra seus pensamentos. Mas a ênfase na posse da idéia pelo autor é irrelevante para mensurar o valor de suas preposições ou de sua obra de arte. O autor em si é completamente independente de suas obras, que adquirem vida própria assim que são divulgadas ao mundo.
Os fatores que afetam as palavras e os feitos de um indivíduo são muitos e variados, entre eles o clima sócio-cultural da época e a contribuição de outros indivíduos. Dizer que uma idéia teve sua origem primordial nas profundezas de um único ser é simplificar grosseiramente. Mas estamos tão acostumados a declarar itens e objetos como sendo nossos, e a aceitar tais declarações de outras pessoas, graças à natureza competitiva que a vida assume em torno de um mercado econômico, que parece natural fazer o mesmo com nossas idéias.
Em segundo lugar, a tradição de reconhecer direitos de propriedade intelectual resulta na deificação do “pensador” ou do “artista”. Quando idéias são associadas a determinados nomes (e sempre aos mesmos nomes), é sugerido que pensar criativamente é uma habilidade pertecente a poucos indíviduos. A glorificação do artista em nossa cultura, por exemplo, que inclui o estereótipo de um visionário excêntrico no avant garde da sociedade, encoraja as pessoas a acreditar que os artistas são diferentes dos outros seres humanos. Na verdade, qualquer um pode ser um artista. E todo mundo é, de certa forma. Mas somos levados a crer que ser criativo e pensar criticamente são talentos que poucos indivíduos possuem. E aqueles entre nós que não são considerados artistas ou filósofos pela comunidade não se esforçarão muito para desenvolver tais habilidades. Conseqüentemente, nos tornamos dependentes de idéias alheias, e permanecemos contentes em sermos meros espectadores dos trabalhos criativos.
O último efeito colateral de nossa associação de idéias a indivíduos é o seguinte: restringir a aceitação dessas idéias apenas em suas formas originais. Os estudantes que aprendem a filosofia de Descartes são encorajados a aprendê-la em sua forma ortodoxa, ao invés de dividi-la e assimilar as partes que acreditam ser relevantes para sua própria vida e seus próprios interesses. A deferência ao “pensador original” faz com que os pensamentos e teorias sejam preservados estaticamente, sem nunca serem postos em novos contextos que poderiam revelar novos insights. Mumificadas, muitas teorias se tornam completamente irrelevantes para a existência moderna, quando poderiam dar novos sopros à vida se fossem tratadas com menos reverência.
Já que é assim, o que podemos fazer para diminuir tais problemas? Plagiar, é claro.
O plágio é um método especialmente eficaz de apropriação e reorganização de idéias, e pode ser uma ótima ferramenta para encorajar o pensamento crítico nos outros. É um método revolucionário que simplesmente não reconhece a noção de “propriedade intelectual”.
O plágio concentra sua atenção no tema, não no autor, tornando impossível verificar as origens genuínas do material, se é que tais origens podem ser traçadas. Assinando um novo nome, ou nome nenhum, a um texto, o plagiador põe o material em um contexto totalmente diferente, gerando novas perspectivas e pensamentos sobre o assunto (procure o conto Pierre Menard, autor del Quixote, de J. L. Borges). O plágio também torna possível a combinação das melhores ou mais relevantes partes de um número qualquer de textos, criando um novo texto com várias das virtudes dos textos antigos – e algumas novas, também, já que a combinação de diferentes fontes cria efeitos imprevisíveis, além de desencadear significados e possibilidades que estavam dormentes há anos. Finalmente, e acima de tudo, o plágio é a reapropriação de idéias: quando um indivíduo plagiariza um texto considerado “sagrado” por aqueles que acreditam na propriedade intelectual, ele nega que exista uma diferença hierárquica entre si mesmo e o pensador em questão. Toma as idéias como suas, para expressá-las como bem entender, ao invés de tratar o autor como uma autoridade. Ele nega, de fato, que há alguma diferença entre o pensador e o resto da humanidade. Pois torna o material do pensador propriedade da humanidade inteira.
Então, se realmente não há “nada de novo sob o sol”, aja de acordo. Pegue, nas teorias e doutrinas dos que vieram antes, o que parece relevante para sua vida e suas necessidades. Não tenha medo de reproduzir letra por letra o que lhe parecer perfeito, para partilhar com outros o que também pode beneficiá-los. Ao mesmo tempo, não tenha medo de desenterrar idéias de fontes diferentes e rearranjá-las de maneiras que você considera mais úteis e excitantes, mais relevantes para você mesmo. Crie um corpo personalizado de pensamento crítico e criativo, de elementos reunidos de várias fontes, ao invés de escolher entre uma das ideologias pré-fabricadas que lhe são oferecidas.
Afinal de contas, nós que temos idéias ou elas é que nos têm?
Palavras, convenções musicais e artísticas, símbolos e gestos, todas essas coisas são úteis somente porque as mantemos em comum. São moedas de troca da comunicação. Seres humanos, como tudo o mais no mundo, não são entidades isoladas: cada um de nós existe como parte de uma vasta teia, como uma interseção de fios que procede de todas as direções. Nenhum de nós poderia ser o que é se não fosse pelos outros em volta de nós e por aqueles que vieram antes de nós, além do mundo natural por trás. Nossos pensamentos são construídos pelas linguagens que são faladas ao nosso redor, nossos valores e histórias pessoais são forjados pelo que encontramos no mundo; nós representamos nossas experiências e memórias para nós mesmos nas configurações desenvolvidas pela civilização que nos criou.
E mesmo assim, não significa que nada é original. Pelo contrário, tudo é. Pois cada expressão, cada ação, por mais que repetida, responde a um ponto único da teia das relações humanas. E ao mesmo tempo, isso significa que a recontextualização de elementos pré-existentes (o plágio) é essencial a todas as formas de comunicação. Pois do que consiste nossos diálogos senão de palavras copiadas e reorganizadas de forma a fazer sentido em um novo contexto? E se toda expressão é ao mesmo tempo copiada e única, parece absurdo tentar separá-la em uma ou outra categoria. A linha entre a imitação e a inovação é tão tênue que toda e qualquer distinção está fadada a ser arbitrária. E se esse é o caso, deixemos aos detalhistas para que tentem decifrar quem foi o primeiro a arranjar palavras e notas musicais em uma ordem particular. Muito mais importante, para nós, é o que podemos fazer com essa combinação de elementos compartilhados.
Alguns clamam para si os direitos de propriedade sobre combinações que acreditam ter sido os primeiros a aplicar. Muitos justificam insistindo que essas combinações são a expressão perfeita de suas emoções e experiências, e aqueles que as lêem ou as escutam estão tendo acesso direto a suas almas. Mas o fato é que um poema ou uma música sempre tem um significado diferente para o leitor ou ouvinte do que teve para o compositor ou escritor. Aquele aplica as palavras deste às suas próprias experiências, e vasculha seu coração para ver quais vão ressoar com as emoções únicas que sente. Goste ou não, no momento em que se cria algo e se mostra ao mundo, a criação adquire vida própria nas reações e nas emoções que provoca nos outros – e não responderá a você ou representará você, a não ser por coincidência. Para o escritor, o verdadeiro significado de seu trabalho é o ato de criação em si, no rearranjo e no talhe das formas. Aqueles que esperam reter algum controle dos produtos de sua criação vivem em negação.
Da mesma forma, podemos jogar fora todas as superstições que envolvem a assinatura do autor – a questão da chamada autenticidade, a glorificação da auto-expressão, o conceito de propriedade intelectual – e ver a assinatura como o que ela realmente é: apenas outro elemento da composição. Assinar um trabalho faz parte do processo criativo: oferece um contexto no qual o trabalho será interpretado. Que assinatura poderia realmente capturar as origens completas de um trabalho, considerando todos os diferentes e antigos componentes que deram vida a qualquer obra de arte, todas as relações humanas e inovações que foram necessárias para sua finalização? Se alguém quiser ser honesto, assinaria o nome de uma civilização inteira em uma poesia ou em uma escultura – efetivamente comunalizando o trabalho.
Assim que estivermos livres da idéia de que possuímos expressões, podemos nos concentrar na verdadeira questão de como criá-las, para que nos ajudem a encontrar a nós mesmos e aos outros. E, então, em transformar aquilo que encontrarmos.
Esse texto, assim como qualquer outro desse blog, foi construído roubando-se palavras da língua portuguesa e idéias do senso incomum, e reorganizando-as de formas que me pareceram úteis. Faça o mesmo, se quiser. Qualquer trecho, ou o texto inteiro, é livre para ser copiado e assinado com outro nome, ou com nome nenhum. Essas palavras e idéias não são minhas, nem suas. São nossas.