Tento ser alguém com quem ninguém sinta vergonha de qualquer parte de si mesmo. Não sei se consigo. Tento ser capaz de observar as ações alheias sem nunca me sentir ameaçado ou assumir uma postura defensiva, mesmo que assumam essa postura contra mim. Às vezes, consigo. Tento perceber os outros através do contexto de suas próprias vidas, não através do meu. Quase nunca consigo. Mas vou continuar tentando. Porque, gostando ou não, precisamos viver com as conseqüências um do outro. Uma pessoa não se constrói sozinha, por mais “pecados” ou “boas ações” que carregue consigo. O mundo inteiro faz de mim o que sou, e faz dos outros o que eles são. Não podemos apagar as décadas de vida que nos transformaram. Podemos apenas assumir a responsabilidade – coletiva, não individual – do que somos e do que fazemos. A culpa de um é a culpa de todos. Ao criticar a sociedade, tenho plena consciência de criticar a mim mesmo. Tento não competir por níveis mais “elevados” de moral. Aos poucos, vou aprendendo. A menos que queira matar todos que não vivem pelos meus padrões ou esteja preparado para agüentar um impasse indefinidamente, devo aceitar os outros em seus próprios termos. Não quero viver em um mundo de conflitos. Não quero viver em um mundo hierárquico. Quero a anarquia das relações humanas.
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