Vida
Liberdade, e a busca pela felicidade
versus
Sobrevivência
Segurança, e a busca pela propriedade
A vida é a existência que sente vontade de acordar pela manhã. Fala-se sobre a vida em poemas épicos, canções de amor, em peças e sonetos de Shakespeare. A sobrevivência é o terreno das receitas médicas, dos planejamentos urbanos, das tabelas econômicas. A vida é gloriosa, estupefante, extravagante. A sobrevivência, sem a vida, é ridícula, pesarosa e absurda.
A sobrevivência é a vida reduzida a imperativos, sejam eles biológicos (respire! coma! faça sexo!) ou culturais (ligue o ar-condicionado para resfriar! veja TV para se manter atualizado! compre um carro para atrair uma parceira!). Ordens específicas às vezes se misturam, como no caso do programador de computadores que não consegue se alimentar sem um abridor de latas. Mas a principal característica dessas necessidades é a de que elas parecem ser não-negociáveis.
Recursos de sobrevivência tendem a ser vistos como escassos. Há uma limitação de comida, água, abrigo e remédios no mundo. Mas como disse o famoso andarilho ao burguês que o perguntou “você precisa comer, não precisa?”: “Sim, mas não tanto quanto você”.
Nossa era caracteriza-se por patamares cada vez mais altos de sobrevivência. O padrão mínimo de vida para se participar da sociedade está sempre aumentando, e manter-se atualizado é um emprego de tempo integral: conseguir o novo formato de leitor digital, aprender a utilizar o novo programa de computador, tratar-se com o novo medicamento… Essa aceleração tecnológica e cultural constante é a conseqüência de um sistema econômico baseado na competição, no qual a inovação contínua é necessária tanto para se vender novos produtos quanto para acompanhar todos aqueles que os usam.
Muitos antropologistas acreditam que as pessoas passam mais tempo trabalhando para cumprir suas “necessidades” básicas do que em qualquer outra época. Seres humanos pré-históricos passavam a maior parte de seus dias em ócio criativo, enquanto nós, com todos os nossos facilitadores de trabalho, gastamos a maior parte de nossas vidas arrecadando dinheiro para pagar por eles, usando-os para cortar a grama, esperando no trânsito para comprar mais baterias… E, claro, quanto mais tempo gastamos suprindo a própria sobrevivência, menos tempo temos para viver.
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