Trechos de entrevista com Guilherme Leal:
Crescimento sustentável significa necessariamente crescimento menor, não?
Há uma diferença entre crescimento e desenvolvimento sustentável. Padecemos globalmente do vício do “crescimentismo”. Sei que crescer é um vetor importante para reduzir as desigualdades, mas defendo a necessidade de se aprofundar uma discussão sobre formas de melhorar o nível de vida das pessoas sem que isso dependa exclusivamente de uma exploração insana dos recursos naturais. Encontrar formas de conciliar objetivos de bem-estar com os de preservação da vida para as próximas gerações. Nos últimos 150 anos tiramos bem mais do planeta do que ele tem capacidade de regenerar. Por isso, a celebração do crescimento dos últimos dez, quinze anos, o espanto em relação aos resultados da China, por exemplo, é alienante. Não é sustentável, como se vê agora [...] O gado é um dos grandes problemas. Na Amazônia, a pecuária extensiva é uma fonte de desmatamento seriíssima. Não há sentido permitir mais desmatamento. E o que já foi aberto deve ser usado, preferencialmente, para o plantio [...] O tema da sustentabilidade está claramente ligado ao destino das grandes metrópoles. No Brasil, não há uma coordenação dessas áreas urbanas profundamente interligadas. Elas ficam meio ao sabor dos ventos. Veja a questão do transporte. Toda a lógica está voltada para o estímulo do transporte individual. Aliás, fico arrepiado ao ver todo esse dinheiro despejado para auxiliar a indústria automobilística. Por mais que se precise de empregos, por mais que se celebre o crescimento fantástico do setor, não consigo ficar satisfeito. Dá pra ficar contente com o fato de que 100 mil novos carros são incorporados por mês à frota de São Paulo? Não é possível imaginar algo mais inteligente do que umas latinhas fumegantes que poluem e te deixam aprisionados em engarrafamentos cada vez maiores?
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