V for Verità

Virada

Fevereiro 18, 2009 · Deixe um comentário

Cansei de rejeitar a hipocrisia. A partir de agora, vou aceitá-la inteiramente.

É impossível evitar a hipocrisia em qualquer combate contra o status quo. As estruturas políticas e econômicas são construídas de tal forma que é praticamente impossível não fazer parte de seu funcionamento. O que quer que um homem pense sobre as oportunidades de emprego disponíveis a ele ou sobre o sistem econômico como um todo, ele quase não tem escolha exceto trabalhar se não quiser morrer de fome ou de uma doença para a qual não pode pagar um tratamento. Se ele não acredita no valor da propriedade material, ele não tem escolha a não ser comprar toda a comida e roupa de que precisa, e comprar ou alugar um lugar para se morar (se não está pronto para bater de frente com o sistema legal). Isso porque não há terras livres disponíveis que ainda não tenham sido exigidas por alguém e quase nenhuma comida ou recursos por aí que não sejam a “propriedade” de alguém.

Se ele quer distribuir um material criticando o sistema capitalista de produção e consumo, não tem como produzir e distribuir esse material sem pagar para produzi-lo, ou vendê-lo a consumidores para financiar a produção.

Se ele não quer financiar a brutal tortura e matança de animais em nome do capitalismo, pode parar de comer carne e derivados do leite, parar de comprar produtos de saúde que são testados em animais, e parar de usar couro e peles. Mas ainda há abuso de animais nos filmes que ele assiste, nas ruas da cidade que ele mora, e em incontáveis produtos e serviços com os quais seria muito difícil passar sem em uma sociedade moderna. Além do mais, as companhias das quais ele compra vegetais estão ligadas às companhias que vendem carne e derivados do leite, e seu dinheiro acaba tendo o mesmo fim. E esses vegetais foram provavelmente colhidos por mão-de-obra imigrante ou por outros trabalhadores oprimidos.

Para o homem comum, que não está pronto para desenraizar sua vida completamente e arriscar a morte e o completo ostracismo, manter as mãos limpas do pesadelo à sua volta é um sonho praticamente impossível.

Mesmo se você rejeitar radicalmente e se desconectar de cada uma dessas instituições, e sobreviver somente do roubo e de transgressões, você ainda estará representando um papel no status quo (nem melhor, nem pior do que qualquer outro). “O Sistema” é uma entidade orgânica vasta que inclui tudo dentro de suas fronteiras, até mesmo os reclusos que dele fogem e os revolucionários que morrem enfrentando-o. Lutar contra ele é sempre lutar a partir de dentro, porque ele nos cria e nos molda, até mesmo quando nos direciona contra si. Declarar estar fora dele, mesmo que por um instante, vivendo da forma como vivemos em um mundo que é feito quase totalmente por construções humanas (sejam físicas, sociais ou filosóficas) é pior que a insanidade: é um fanatismo com inclinações cristãs.

Os valores ocidentais modernos são tão integrados em nossas mentes que é praticamente impossível evitar ser influenciado em nossas ações pelas próprias suposições e atitudes contra as quais lutamos. Depois de uma vida inteira sendo ensinados a pôr um valor financeiro nas horas disponíveis de nossas vidas, é difícil parar de pensar que devemos ser materialmente recompensados para que uma atividade seja legítima.

Depois de uma vida inteira sendo ensinados a respeitar hierarquias de autoridade, é muito difícil começar a interagir com todos os seres humanos como sendo nossos iguais. Sem contar fazer sexo com eles sem erotizar a dominação e a submissão.

Depois de uma vida inteira sendo ensinados a associar a felicidade a uma atitude de espectador passivo (e com a “estabilidade”), é difícil gostar mais de construir os próprios móveis do que sair para comprá-los, ou vivenciar emoções fora da televisão e do cinema. E é claro que há mais milhares de meios pelos quais esses valores e suposições se manifestam em nossos pensamentos e em nossas ações.

No entanto, isso não significa que qualquer resistência seja fútil. Se nossas escolhas são tão limitadas que não podemos agir sem replicar as condições das quais estamos tentando escapar, a resistência é ainda mais importante. Sim, isso significa que a “inocência” é um mito, um conceito contra-revolucionário que devemos deixar de lado junto com o resto do pensamento pós-cristão e a ética protestante do trabalho.

O cristão (ou qualquer outro religioso tradicional de doutrina similar) ordena aos seres humanos que eles sejam inocentes, que eles mantenham suas mãos limpas de qualquer “pecado”. Ao mesmo tempo, o “pecado” é tão difícil de se evitar para o cristão (assim como a atividade contra-revolucionária para os revolucionários) que essa imposição leva a sentimentos de culpa, de fracasso e de desespero, quando ele percebe que é impossível ser “inocente” e “puro”. Na verdade, ao proibir o “pecado”, a doutrina cristã o torna ainda mais tentador e intrigante para aqueles que acreditam nele. Porque não importa se a mente reconhece ou não, o coração humano não reconhece autoridade alguma e sempre irá procurar aquilo que é proibido.

Nós não devemos cometer os mesmos erros dos cristãos. Ordenar que o radicalismo e a rebeldia sejam livres da hipocrisia, livre de qualquer implicação no sistema, tem os mesmo efeitos que a ordem cristã de que as pessoas sejam livres do pecado: isso cria frustração e desespero naqueles que procurariam uma mudança, e ao mesmo tempo torna a hipocrisia muito mais tentadora.

Ao invés de procurar manter as mãos limpas, devemos procurar fazer valer a pena os inevitáveis efeitos negativos de nossas vidas oferecendo atividades positivas o suficiente para mais do que equilibrar a balança. Essa aproximação ao problema pode nos salvar de ficarmos imobilizados pelo medo da hipocrisia ou pela vergonha de nossa “culpa”.

Além do mais, ordenar que evitemos a hipocrisia é negar a complexidade da alma humana. O coração humano não é simples. Todo ser humano tem uma variedade de desejos que apontam em direções diferentes. Pedir que alguém persiga somente um desses desejos e ignore os outros é pedir que esse alguém permaneça eternamente incompleto… e deixe de ser curioso. Isso é típico do pensamento dogmático e ideológico que tem nos afligido por séculos: ele insiste que o indivíduo precisa ser leal a um conjunto de regras, e apenas um, ao invés de fazer o que é apropriado a suas necessidades para cada situação em particular.

Um ser só pode se expressar completamente através da hipocrisia. Não há problema em formular um conjunto geral de conduta, mas é essencial quebrá-lo de tempos em tempos para prevenir a estagnação e permitir-se a oportunidade de considerar se essa conduta precisa de uma reavaliação. Uma pessoa que não tem medo de ser hipócrita corre menos riscos de se vender completamente um dia, porque está disposta a provar do “fruto proibido” sem se sentir forçada a fazer uma escolha permanente. Ela é imune à vergonha e ao desespero eventuais que afligem aqueles que procuram pela “inocência” perfeita.

Seja orgulhoso de você como é: não tente fazer as inconsistências de sua alma se encaixarem de uma maneira falsa e forçada. Ao invés de se prender inflexivelmente a um sistema, vamos ousar rejeitar a ideia de que devemos ser fiéis a uma doutrina em particular em nossos esforços para criar uma vida melhor para nós mesmos. Vamos não declarar inocência, não declarar pureza e certeza. Vamos proclamar orgulhosamente que nós somos hipócritas, que nada irá nos impedir, nem mesmo a hipocrisia, de lutar para ter o controle de nossas próprias vidas.

Numa era em que é impossível evitar ser uma parte do sistema contra o qual lutamos, somente a hipocrisia descarada é verdadeiramente subversiva. Só ela fala a verdade de nossos corações, e só ela pode mostrar o quão difícil é evitar viver a vida que foi preparada para nós. E isso já é uma boa razão para se lutar.

Categorias: Anarquia

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